Decisão do artista destaca a importância da previsibilidade no desenvolvimento infantilReprodução/Redes Sociais

Olá, meninas!
O Zé Felipe comentou recentemente que decidiu dar uma segurada nas viagens com os filhos, e o motivo é bem direto: organizar a rotina das crianças.

Segundo ele, com a correria e tantos deslocamentos, o dia a dia dos pequenos estava ficando meio bagunçado, principalmente em relação aos estudos. E aí veio aquela decisão que muitos pais acabam enfrentando em algum momento: colocar mais ordem na casa e priorizar o básico.

Porque vamos combinar, né? Criança até ama uma novidade, uma viagem, um passeio diferente… mas quando isso vira constante, pode desregular tudo. Sono fora do horário, alimentação desorganizada, falta de foco… é como se o corpinho e a cabecinha não conseguissem acompanhar.

E é aí que entra a tal da rotina, que muita gente subestima, mas faz toda a diferença. Ter horários mais previsíveis, uma sequência de atividades e um ritmo mais estável traz segurança para a criança. Ela entende o que vem depois, se sente mais tranquila e até se desenvolve melhor.
Para entender melhor esse assunto, conversei com o querido psicólogo e psicanalista Leandro Valente, que reforçou justamente a importância de uma rotina para os pequenos. Confira abaixo:
A rotina é realmente tão importante assim para o desenvolvimento infantil? Por quê?
Sim, a rotina é fundamental, mas não apenas pela organização do tempo. Para a psicanálise, a rotina funciona como uma moldura simbólica. A criança nasce em um mundo de estímulos caóticos e desconhecidos; a repetição de eventos (a hora do banho, do sono, das refeições) cria o que chamamos de previsibilidade.
Essa previsibilidade é o que permite a construção do sentimento de segurança. Quando a criança sabe o que vem a seguir, ela reduz a angústia do desconhecido e pode investir sua energia psíquica em descobrir o mundo e a si mesma, em vez de apenas 'sobreviver' à incerteza.
A rotina oferece uma base estável para que a criança sinta que o mundo é um lugar confiável e é o primeiro contato da criança com as 'leis' do mundo — existe um tempo para o desejo e um tempo para a realidade — o que é essencial para o desenvolvimento da autonomia.
O que acontece com uma criança quando há muitas quebras de rotina, como viagens frequentes?
Quando a quebra de rotina se torna a regra — como no caso de viagens constantes e mudanças de ambiente — a criança pode sofrer o que chamamos de sentimento de desamparo. Se a rotina é a moldura, a falta dela deixa a imagem 'solta', gerando uma sensação de instabilidade psíquica.
Sem referências fixas (o mesmo quarto, o mesmo cheiro, os mesmos horários), a criança pode sentir dificuldade em integrar suas experiências.
Ela gasta muita energia tentando se adaptar ao novo cenário, o que pode gerar irritabilidade, distúrbios de sono e regressões no desenvolvimento.
É fundamental entender que, se o cenário muda, os cuidadores precisam ser a 'constância'. Em casos de viagens constantes, é recomendável carregar objetos transicionais (o brinquedo favorito, o cobertor) e manter pequenos ritos, como a mesma canção antes de dormir ou o mesmo formato de café da manhã, independentemente de onde estejam. Isso ajuda a criança a sentir que, embora o lugar mude, o vínculo e a estrutura permanecem.
Existe um impacto direto no aprendizado escolar quando a criança não tem uma rotina bem definida?
Com certeza. O impacto é direto e profundo. Para que uma criança consiga aprender, ela precisa estar em um estado que chamamos de disponibilidade psíquica. Se a vida fora da escola é caótica ou imprevisível, a energia mental que deveria ser usada para absorver novos conceitos (como alfabetização ou lógica) é desviada para a tentativa de organizar o próprio caos interno.
A rotina ajuda a desenvolver o córtex pré-frontal, responsável pelo foco, planejamento e controle de impulsos. Sem horários para dormir ou comer, a criança apresenta fadiga cognitiva, o que prejudica a retenção da memória e a concentração.
O aprendizado escolar é um processo simbólico. Se a criança não confia na 'estabilidade do mundo' (porque sua rotina é falha), ela pode desenvolver bloqueios na aprendizagem, pois o novo é sentido como uma ameaça ou como algo que ela não consegue 'conter'.
Até que ponto experiências como viagens podem ser positivas e quando passam a ser prejudiciais?
As viagens não são vilãs; o problema reside na frequência e na função que elas ocupam na vida da criança. Existe uma linha tênue entre a expansão de repertório e a desorganização psíquica.
Viagens esporádicas e planejadas são riquíssimas. Elas apresentam o 'Estrangeiro' à criança — novas cores, sabores e idiomas. Do ponto de vista psicanalítico, isso estimula a curiosidade epistêmica (o desejo de saber). Se a criança tem uma base sólida em casa, a viagem é vivida como uma aventura segura que amplia sua visão de mundo e fortalece os vínculos familiares através do lazer compartilhado.
A viagem passa a ser prejudicial quando deixa de ser uma exceção e se torna um estilo de vida itinerante sem contrapartida de estabilidade e impedindo a criança de criar vínculos profundos e raízes.

A fala do Zé Felipe acabou levantando um ponto importante: nem sempre aquele estilo de vida super dinâmico, cheio de viagens, funciona para os pequenos. Pode ser incrível para os adultos, mas criança precisa de uma base mais firme.

Claro que isso não significa cortar os momentos especiais. Viagem em família, passeios e experiências continuam sendo importantes e enriquecedores. A diferença está no equilíbrio, em não deixar que isso atrapalhe o que sustenta o dia a dia deles.