Nível contracionista da Selic faz com que diferencial de juros esteja 'a favor do Brasil', diz Gabriel GalípoloAntônio Cruz/Agência Brasil
"O que nós estamos comunicando o tempo todo, é o que foi entendido aqui: essa gordura que foi acumulada com uma posição mais conservadora ao longo das últimas reuniões de Copom, permitiu, mesmo diante de novos fatos - e esses novos fatos não alteraram a circunstância como um todo, do ponto de vista da transmissão da política monetária e das incertezas que se tem sobre os efeitos de um choque de oferta com petróleo - para que a gente alterasse a nossa trajetória (de corte na Selic)", disse Galípolo, durante participação no Macro Day do J. Safra, em São Paulo. "Então a gente decidiu seguir com a nossa trajetória e iniciar o ciclo de calibragem da política monetária", reforçou.
Neste cenário, o presidente do BC usou novamente a metáfora de que a autoridade monetária é mais um transatlântico do que um jet-ski e, por isso, não faz movimentos bruscos ou extremados.
Galípolo ainda pontuou que a própria governança do BC ajuda no processo de não se tomar posições extremadas. "É por isso que tem um ciclo tão longo do ponto de exposição das apresentações, é por isso que é um colegiado", disse Galípolo.
Balanço de riscos
"O fato do Banco Central ter aguardado, incorporado gradativamente, parece ter se mostrado mais interessante do ponto de vista de não amplificar e reverberar uma volatilidade que poderia ser gerada. Estamos aprendendo e entendendo como é que vão ser os impactos, mas primeiro momento a nossa visão é essa, crescimento para baixo, inflação para cima", detalhou Galípolo.
Ainda em relação ao impacto do conflito no Oriente Médio para o Brasil, o presidente do BC pontuou que, em tese, o País pode se beneficiar, por ser um exportador líquido de petróleo.
Outro benefício, acrescentou Galípolo, é o fato do diferencial de juros estar a favor do Brasil hoje, dado o nível já bastante contracionista da taxa Selic.
"Comparativamente a outros bancos centrais que estão mais próximos a uma taxa de juros neutra, acho que também nos coloca em uma posição mais favorável quando comparado com os pares. Era melhor que a gente não tivesse nenhum tipo de conflito, nenhum tipo de impacto como esse, mas estamos só comparando o relativo a partir do impacto", frisou o banqueiro central.
Produtividade
Para Galípolo é preciso refletir sobre quais políticas podem transformar o País e torná-lo mais atraente para o recebimento de investimentos, o que, ao fim, também irá significar ganho de produtividade.
"Esse é o tema talvez mais relevante e que explica boa parte da dificuldade, tanto na política fiscal, quanto na política monetária", reforçou o banqueiro central. "Se você ficar produzindo pressões de demanda que decorrem dos dois vetores que eu comentei estímulo à demanda e ganho de renda acima da produtividade, provavelmente você vai chegar num ponto em que terá que subir juros para tentar conter e devolver a inflação para o lugar dela".
Nesse cenário, o presidente do BC lembrou que o Brasil não foi muito exitoso em se integrar às cadeias de valor global nos últimos anos. Essa situação, pontuou Galípolo, fez com que em momentos recentes, como a adoção de política tarifária agressiva nos Estados Unidos, o Brasil também passasse a ser visto como uma nação que sofreria menos com esses choques.
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