Pesquisa mostra que 73,2% ainda preferem ser atendidos por pessoasReprodução
A insatisfação com o atendimento digital está longe de ser pontual e tem impacto direto na relação entre consumidor e empresa. Segundo a pesquisa, mensagens genéricas que não resolvem a demanda são apontadas por 55% dos entrevistados como uma das principais falhas, enquanto 44,4% relatam atendimentos encerrados sem solução. Na prática, o cenário descrito pelos usuários é de desgaste: o consumidor entra em contato, mas sai sem resposta adequada.
Esse tipo de experiência tem consequências imediatas. De acordo com o levantamento da Locaweb, 31,8% dos consumidores afirmam expor a insatisfação em avaliações públicas, como no Google e em plataformas de reclamação. Outros 23,6% abandonam o site ou aplicativo da empresa e procuram um concorrente, enquanto 21% tentam resolver o problema por outro canal, como e-mail ou chat — o que prolonga ainda mais a jornada.
O impacto, porém, vai além do momento da reclamação. Seis em cada dez consumidores (58,8%) dizem evitar novas compras após um mau atendimento, e 23,6% afirmam deixar de recomendar a marca para outras pessoas. Apenas uma parcela menor, de 11,6%, se mostra disposta a dar uma nova chance, mesmo quando o problema é resolvido posteriormente — um indicativo de como o atendimento pesa na construção da confiança.
Apesar do avanço da tecnologia, a preferência pelo contato humano ainda é dominante. A pesquisa mostra que 73,2% dos consumidores gostariam ser atendidos por pessoas, enquanto 22,6% dizem não ter preferência. O dado reforça a percepção de que, embora os canais digitais estejam cada vez mais presentes, eles ainda não conseguem substituir completamente a interação humana, principalmente em situações mais complexas.
Além da forma de atendimento, os canais influenciam a experiência. O WhatsApp aparece como principal meio de contato, citado por 83,8% dos entrevistados — seguido por e-mail (54,4%) e Instagram (53,4%). O chat nos sites é utilizado por 45,2%, mostrando que o consumidor espera ter mais de uma opção para buscar suporte.
A qualidade da estrutura digital também entra na conta. Para 65,8% dos consumidores, sites estáveis, sem quedas ou travamentos, são essenciais no momento do atendimento. Já 60,6% destacam a importância de páginas adaptadas para dispositivos móveis, enquanto 48,6% apontam a segurança dos dados (com uso de protocolos como HTTPS) como fator relevante na experiência.
Diante desse cenário, especialistas apontam que o desafio das empresas está em equilibrar tecnologia e atendimento humanizado.
Quando o robô não resolve
A analista administrativa Mariana Souza, de 32 anos, passou mais de uma hora tentando cancelar uma assinatura de R$ 39,90 na Netflix e sem sucesso.
"Eu só queria cancelar. Era uma coisa simples, um valor pequeno, mas o chat ficava me jogando de uma opção pra outra, sempre com respostas prontas que não resolviam nada", conta.
O motorista de aplicativo Carlos Henrique Alves, de 41 anos, enfrentou dificuldades para contestar uma cobrança indevida de R$ 87,50 na fatura da Claro.
"Eu só queria falar com uma pessoa. Mas era um labirinto. Você vai clicando, clicando, e nunca chega em alguém de verdade", reclama.
Já a estudante Juliana Ribeiro, de 27 anos, tentou trocar um produto de R$ 129 comprado na Amazon, mas encontrou barreiras no atendimento.
"O desgaste é muito maior do que o problema. Quando finalmente consegui falar com alguém, resolveram rápido. Então por que não facilitar desde o início?", questiona.
Procuradas pela reportagem, as empresas citadas não retornaram. O espaço segue aberto para manifestação.
O que diz a lei
Do ponto de vista legal, o consumidor não está desprotegido. A Secretaria Municipal de Proteção e Defesa do Consumidor, por meio do Procon Carioca, esclareceu ao O DIA que existe uma legislação específica que regula os Serviços de Atendimento ao Cliente (SAC) das empresas.
"A legislação determina que o atendimento deve ser eficiente, acessível e resolutivo, garantindo ao consumidor canais gratuitos, disponibilidade adequada e a possibilidade de registrar reclamações, cancelar serviços e obter informações de forma clara e ágil", informa o órgão por meio de nota.
Entre as regras, estão a obrigatoriedade de atendimento em tempo razoável, a proibição de práticas que dificultem o cancelamento e o dever de fornecer protocolos de atendimento, que permitem ao consumidor acompanhar sua solicitação.
"A norma também prevê que o consumidor não pode ser submetido a barreiras excessivas ou transferências indevidas, sendo responsabilidade da empresa garantir a efetiva solução da solicitação apresentada", destaca o Procon Carioca.
Segundo o órgão, o descumprimento dessas regras pode resultar em sanções, como multas e outras medidas administrativas.
Tema está no radar
No âmbito federal, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça também acompanha o avanço do uso de inteligência artificial no atendimento ao cliente. Em resposta ao O DIA, a secretaria informou que ainda não há um recorte específico nos sistemas que permita identificar, de forma isolada, o aumento de reclamações diretamente relacionadas ao uso de IA.
Apesar disso, o problema já aparece de forma indireta em diversas demandas. Segundo o órgão, queixas sobre dificuldade de acesso a atendimento humano, baixa resolutividade e falhas na prestação de serviço têm relação com o modelo atual de atendimento digital.
"A incorporação de IA nos canais de atendimento é uma realidade irreversível, mas deve ser compatível com os direitos básicos previstos no Código de Defesa do Consumidor, em especial os de informação adequada, transparência e efetiva resolução de demandas", destaca a secretaria.
"O uso de IA pode, em determinadas circunstâncias, configurar obstáculo ao exercício de direitos, especialmente quando impede ou dificulta o acesso a soluções efetivas, à revisão de cobranças ou ao cancelamento de serviços", alerta.
A Senacon frisa que segue monitorando a evolução dessas práticas e tem atuado em temas relacionados ao uso de tecnologia nas relações de consumo, incluindo medidas voltadas à inteligência artificial e à proteção de dados dos usuários.
Em um dos casos, ao acessar o atendimento da Vivo para obter informações sobre cancelamento de serviço, o primeiro contato foi feito por meio de um chatbot. A interação começou às 10h02.
Nos primeiros minutos, o sistema apresentou uma série de opções pré-definidas, sem espaço para detalhamento da demanda. Mesmo após selecionar alternativas relacionadas ao problema, as respostas seguiram genéricas e não levaram à solução.
A tentativa de chegar a um atendente humano exigiu múltiplas etapas. Foi necessário repetir a solicitação em diferentes menus até que a opção de transferência fosse disponibilizada, o que só ocorreu após cerca de 18 minutos de interação.
"No aplicativo da Vivo, o processo pode acontecer de maneira totalmente digital ou com o auxílio dos consultores por meio do chat, que foi desenhado para atender o cliente em até três minutos", disse.
"E no Call Center, o cliente também tem autonomia para escolher como deseja concluir o cancelamento, optando entre a interação eletrônica ou o atendimento humano, sempre de forma simples e prática", concluiu.
Já em outro teste, ao solicitar informações sobre prazo de entrega e rastreamento de pedido no atendimento digital dos Correios, o sistema automatizado conseguiuu fornecer a informação desejada em aproximadamente três minutos, sem necessidade de intervenção humana.
Os resultados mostram que, embora a tecnologia seja capaz de resolver demandas simples com agilidade, ainda apresenta limitações em situações mais específicas, especialmente quando o consumidor precisa sair do fluxo padrão ou resolver questões mais complexas.
Em ambos os casos, o tempo e o caminho até a solução variaram significativamente, reforçando a percepção apontada na pesquisa: quando o robô não resolve, o acesso ao atendimento humano ainda é um dos principais desafios enfrentados pelos consumidores.
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