Depois de alta de 0,87% em março, a divisa já recua 2,22% nos primeiros seis pregões de abrilValter Campanato/Agência Brasil

 O dólar aprofundou o ritmo de queda ao longo da tarde, alinhado ao comportamento da moeda norte-americana no exterior, e encerrou a sessão desta quinta-feira (9), no menor nível em exatos dois anos. Após uma manhã marcada por preocupações com a fragilidade do acordo de cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã, sugiram ao longo da segunda etapa de negócios sinais positivos de perda das tensões no Oriente Médio, o que reduziu o fôlego dos preços do petróleo e abriu espaço para alívio dos prêmios de risco.

Após dois dias com desempenho inferior ao de pares, o real figurou nesta quinta no grupo das moedas globais mais líquidas com maiores ganhos em relação ao dólar. Operadores relatam entrada de recursos estrangeiros para a bolsa doméstica. O Ibovespa atingiu a marca histórica de 195 mil pontos, impulsionado por ganhos de mais de 2% das ações da Petrobras.

Com mínima de R$ 5,0588, o dólar à vista terminou em baixa de 0,77%, a R$ 5,0634 - menor valor desde 9 de abril de 2024.

Depois de alta de 0,87% em março, a divisa já recua 2,22% nos primeiros seis pregões de abril. No ano, a moeda americana acumula agora desvalorização de 7,75% em relação ao real.

Pouco depois das 12 horas, circulou a informação de que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, teria solicitado ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que reduzisse os ataques ao Líbano para facilitar o diálogo com o Irã. No início da tarde, Netanyahu informou que instruiu o governo a iniciar tratativas com o Líbano.
O aceno de Israel desarma parte dos temores de malogro das negociações entre EUA e Irã que surgiram na quarta tarde, após autoridades iranianas fecharem novamente o Estreito de Ormuz, pretextando que ataques israelenses ao Líbano violavam as condições para o cessar-fogo.

Em mensagem de texto divulgada nesta quinta, o líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, subiu o tom ao afirmar que exigirá compensações de EUA e Israel por danos em território iraniano e que "a gestão do Estreito será levada a uma nova fase". Trump, por sua vez, se disse "muito otimista" em torno de um acordo de paz, ponderando que os líderes iranianos "falam de maneira muito diferente" em encontros privados e com a imprensa.

O diretor de Investimentos da Azimut Brasil Wealth Management, Marco Antonio Mecchi, ressalta que o real se comportou muito bem ao longo de março e, com o alívio recente nas tensões geopolíticas, voltou a ser negociado abaixo dos níveis vistos antes do início da guerra no Oriente Médio, no fim de fevereiro.

"O mercado está dominado pelo cenário externo. Não há notícia local fazendo preço. Se não houver uma retomada do conflito, o dólar pode buscar os R$ 5,00 no curto prazo. O Brasil é exportador de petróleo e temos um diferencial de juros muito grande", afirma o diretor da Azimut, alertando, contudo, que parecem haver entraves relevantes a um acordo de paz entre Estados Unidos e Irã.

O gestor argumenta que as condições apresentadas pelos iranianos se contrapõem ao 15 pontos para a paz elencados por Trump em março. Os Estados Unidos pleiteavam a abertura total do Estreito de Ormuz, ao passo que Teerã se mostra disposto a controlar a passagem por onde é escoada 20% da produção global de petróleo. O Irã insiste em continuar a enriquecer urânio, algo não tolerado por Washington.

"A melhora do mercado com a possibilidade de um acordo é justificável, até por conta da retórica anterior de Trump, que falava em acabar com uma civilização. Mas é difícil imaginar qual vai ser o ponto de encontro entre as intenções de EUA e Irã", alerta o diretor de investimentos da Azimut.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY recuou e voltou a ser negociado abaixo da linha dos 99,000 pontos, com mínima aos 98,625 pontos. Dados dos EUA divulgados nesta quinta mostraram perda de fôlego de atividade e inflação ainda acima da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).

A leitura final do Produto Interno Bruto (PIB) dos EUA no quarto trimestre mostrou taxa anualizada de 0,5%, abaixo da estimativa de analistas, de 0,7%. A atividade pode ter sido abalada, segundo analistas, pelo efeito da paralisação parcial (shutdown) da máquina pública. Já o índice de preços de gastos com consumo (PCE, na sigla em inglês) dos EUA e seu núcleo vieram em linha com as expectativas, embora mostrem inflação anual perto de 3%.