Paulo Picchetti alertou para a possibilidade de choques originados no exterior chegarem ao mercado brasileiroReprodução / FGV Ibre

O diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos e de Política Econômica do Banco Central, Paulo Picchetti, disse nesta quinta-feira, 16, que, apesar de não ter debatido sobre o ambiente macroeconômico doméstico e internacional com os seus colegas do Comitê de Política Monetária (Copom), está claro que a situação ainda é de muita incerteza. "Não conversei com o Comitê, mas as coisas definitivamente não melhoraram desde o Copom de março", comparou.
As declarações foram realizadas nesta quinta-feira, em participação no Itaú Latam Day, em Washington, DC, nos EUA.
Ele salientou que a economia brasileira tem mostrado algum arrefecimento na margem e que esse movimento é fruto da política monetária mais restritiva adotada pelo Banco Central.
Picchetti comentou, no entanto, que as previsões do mercado no ano passado apontavam para uma queda mais drástica em 2026, incluindo algumas estimativas de recessão econômica, e que esse quadro mais negativo não se confirmou. "Não estamos preocupados com isso no momento", descartou.
Durante o evento, o diretor foi questionado sobre como o Banco Central poderá se comportar dependendo do resultado da eleição presidencial de outubro. Ele disse que os dirigentes da instituição não se manifestam sobre pontos específicos da política e aproveitou o momento para ressaltar a importância de uma coordenação entre as políticas fiscal e monetária, independentemente de quem sair vitorioso do pleito.
Picchetti falou também sobre a possibilidade de choques originados no exterior chegarem ao mercado brasileiro num momento em que as expectativas para a inflação já estão desancoradas.
Desancoragem
O diretor disse que existe um prêmio, da ordem de 0,5 ponto porcentual, nas expectativas de inflação do mercado. Segundo ele, tem havido um movimento recente de desancoragem, por conta das incertezas com a Guerra no Oriente Médio, mas essa desancoragem não acontece em relação ao centro da meta, de 3,0%, e sim em relação a esse prêmio de risco, que já está no cenário do mercado há bastante tempo.
"Em termos de fundamentos e do tipo de coisa que você consegue colocar em um modelo, é meio difícil apontar de onde vem esse prêmio", afirmou Picchetti. "Então, se você olhar para a parte um recorte mais recente, verá que, ano a ano, o mercado não espera consolidação fiscal. Então isso pode explicar esse prêmio E é sempre uma fonte de pressão", acrescentou.
Mercado de trabalho
Durante sua fala, Picchetti também avaliou o atual cenário do mercado de trabalho. O diretor do BC destacou que o mercado de trabalho tem surpreendido para cima em todo o mundo, mas que, em alguns dados no Brasil, já é possível apontar um movimento de desaceleração.
Assim, Picchetti pontuou que o desemprego tende a voltar a subir, mas muito provavelmente apenas a partir de 2027 e 2028, o que, não necessariamente, será uma má notícia.
Guidance
O diretor do Banco Central disse que a autoridade monetária segue sem qualquer guidance para a próxima decisão sobre o nível da Selic, que acontecerá no final deste mês. Picchetti destacou que o guidance só é bem vindo quando há um nível de confiança forte o suficiente em relação ao cenário econômico, o que não é o caso, sobretudo por conta do conflito no Oriente Médio.
"Para nós, o custo em termos de credibilidade de sinalizar algo que, na prática, acabamos não cumprindo é muito alto. E, claro, isso cria esse tipo de ansiedade, que não é só para vocês; é para nós também", disse ele.
Na avaliação do diretor do BC, o colegiado optou, em sua última reunião, por não alterar significativamente o balanço de riscos para a inflação, mesmo com a eclosão do conflito no Oriente Médio, justamente porque ainda há dúvidas sobre os reais impactos e, sobretudo, a duração desses efeitos sobre a economia Essa avaliação, disse Picchetti, não significa dizer que o BC está subestimando os efeitos de segunda ordem de um choque, como o de uma guerra, sobre a inflação.
"Concordamos muito rapidamente que o balanço de riscos estava defasado; ele está lá desde maio de 2025, e muita coisa aconteceu. Mas não tínhamos tanta certeza sobre qual seria uma atualização ideal para ele, por causa, novamente, desse ambiente incerto, e de riscos tanto de baixa quanto de alta serem afetados por essa incerteza quanto à duração, à profundidade e às consequências do conflito", detalhou o diretor do BC.
Crédito
Durante sua fala, o diretor do BC também fez menção às tendências para a concessão de crédito no País. Segundo ele, tem havido, de fato, um aumento na inadimplência, o que é reconhecido pelo BC. "Temos visto fluxo negativo de empresas e famílias para o setor financeiro há bastante tempo. Isso aumentou, especialmente, para as famílias", destacou o diretor do BC.
O diretor brincou ainda com a variedade de assuntos sobre os quais um membro do Copom precisa se debruçar: desde questões climáticas, como o entendimento do ciclo do El Niño, até as que envolvem guerras. "Estou me tornando especialista em vários temas, e isso inclui a guerra agora. Tivemos uma conversa com um especialista na Escola de Guerra em Brasília", relatou.
Ele comentou que leu relatórios de grandes casas e consultorias que a probabilidade era a de que a guerra terminasse em duas semanas. "Não temos uma visão clara sobre isso, e eu acredito que ninguém tem. Dito isso, só podemos ser honestamente dependentes de dados e esperar para ver o que acontece."