O setor de bares e restaurantes terá um novo desafio a partir de 2027, com a entrada em vigor do Imposto Seletivo (IS), conhecido como "imposto do pecado". A medida, que busca desestimular o consumo de produtos prejudiciais à saúde e ao meio ambiente, deve encarecer itens como bebidas alcoólicas, refrigerantes e cigarros. Especialistas explicam os impactos econômicos e dão dicas para o consumidor se preparar para possíveis mudanças no orçamento.
Segundo a especialista em finanças Renata Baldin, apesar de a tributação atingir a indústria, o aumento será repassado ao consumidor final.
Renata Baldin, executiva jurídica especialista em Direito TributárioArquivo pessoal
"O imposto do pecado foi criado pela reforma tributária para tributar de maneira mais gravosa produtos e atividades considerados prejudiciais à saúde ou ao meio ambiente, entre eles bebidas alcoólicas, cigarros, refrigerantes, veículos poluentes, apostas esportivas e mineração", afirma.
Renata Baldin destaca que, com a nova tributação, bebidas com maior teor alcoólico estarão sujeitas a uma carga tributária mais elevada.
"Destilados como vodca e uísque tendem a sofrer o maior impacto proporcional. Vinhos, com teor intermediário, devem ter impacto moderado a alto. Já a cerveja, apesar do teor alcoólico mais baixo (entre 3% e 7%), também deve sentir o efeito de forma significativa por causa do volume consumido — é a bebida alcoólica mais popular do país", diz.
Apesar de alíquota do imposto a ser aplicado a cada produto ainda não estar definida, Marcelo Marani, fundador do Donos de Restaurantes, escola especializada em gestão para empresários do food service, frisa que os impactos da medida já podem ser previstos.
Marcelo Marani, fundador da Donos de Restaurantes, escola especializada em gestão para empresários do setorArquivo pessoal
"Quando o custo tributário aumenta, indústria, distribuidores e comerciantes precisam decidir quanto conseguem absorver e quanto será repassado ao preço final. No caso dos bares e restaurantes, essa conta é especialmente delicada, porque muitos estabelecimentos já trabalham com margens apertadas", alerta o especialista.
Marani enfatiza que, na prática, o empresário não pode apenas repassar o aumento recebido pelo fornecedor ao cliente.
"Ele precisa analisar margem, volume de vendas e comportamento do cliente. Uma bebida pode suportar determinado reajuste sem perder demanda, enquanto outra pode ficar cara demais e fazer o consumidor migrar de marca, categoria ou até reduzir o consumo. O impacto real vai depender das alíquotas que forem estabelecidas e de como cada elo da cadeia fará esse repasse", pontua.
Apesar do susto inicial para os estabelecimentos, o consultor tributário Francisco Arrighi defende que o aumento pode ser equilibrado por outros mecanismos.
Consultor tributário e presidente da Fradema Consultores Tributários, Francisco ArrighiArquivo pessoal
"O que pode acabar dando uma compensada no impacto é que a reforma criou um regime específico para bares e restaurantes, com redução de 40% das alíquotas de IBS e CBS sobre alimentação, mas não sobre bebidas", enfatiza.
Procurado, o diretor jurídico e de Relações Institucionais do Sindicato de Bares e Restaurantes do Rio de Janeiro (SindRio), Rafael Cardoso, informa que a entidade "acompanha com atenção a discussão sobre o Imposto Seletivo no âmbito da Reforma Tributária".
"O ponto que merece atenção é a própria natureza desse tributo. Trata-se de uma incidência de caráter extrafiscal, sem geração de créditos, que tende a elevar a carga sobre os produtos alcançados", destaca em nota.
"A definição das alíquotas e das regras de aplicação deverá, portanto, considerar cuidadosamente seus reflexos sobre toda a cadeia, incluindo bares, restaurantes, supermercados, distribuidores e produtores. O setor defende que a implementação seja conduzida de forma gradual, transparente e tecnicamente fundamentada, preservando a competitividade e evitando impactos desproporcionais para quem empreende, gera empregos e atende o consumidor diariamente", frisa.
"Neste momento, porém, não há alíquota definida nem regulamentação final que permita calcular seus efeitos práticos. Por isso, seria prematuro projetar aumento de preços das bebidas, impacto sobre o faturamento de bares e restaurantes ou eventual alteração no volume de vendas e nos hábitos de consumo", reforça.
Além de bares e restaurantes, os preços dos produtos nos supermercados serão afetados, destaca Renata Baldin.
"A nova tributação deve aparecer para o consumidor nos supermercados. Embora o percentual final ainda dependa da regulamentação do Congresso, o mercado já trabalha com a expectativa de reajustes visíveis no preço de prateleira a partir de 2027, o momento em que o Imposto Seletivo passa a incidir de forma plena", detalha.
"Como a cerveja é o produto mais vendido da categoria, qualquer variação percentual tende a ter grande impacto no bolso do consumidor médio, mesmo que a alíquota aplicada seja proporcionalmente menor do que a de destilados."
Além de bares e restaurantes, os preços dos produtos nos supermercados serão afetados, garante Renata Baldin.
"A nova tributação deve aparecer para o consumidor nos supermercados. Embora o percentual final ainda dependa da regulamentação do Congresso, o mercado já trabalha com a expectativa de reajustes visíveis no preço de prateleira a partir de 2027, o momento em que o Imposto Seletivo passa a incidir de forma plena", afirma.
"Como a cerveja é o produto mais vendido da categoria, qualquer variação percentual tende a ter grande impacto no bolso do consumidor médio, mesmo que a alíquota aplicada a ela seja proporcionalmente menor do que a de destilados."
O morador de Duque de Caxias, o nutricionista Victor Peçanha, de 32 anos, conta que costuma consumir bebidas alcoólicas em bares e restaurantes cerca de três vezes por mês.
Victor Peçanha, nutricionista, de 32 anos, de Duque de Caxias, Rio de JaneiroArquivo pessoal
"Beber em casa costuma ser mais econômico. Se os preços aumentarem, eu poderia trocar consumir algo nos estabelecimentos por um encontro na casa de amigos, por exemplo", diz o nutricionista. "Atualmente, inclusive, já sinto que as bebidas estão mais caras."
Já o contador Frederico de Souza Bezerra, de 31 anos, morador de Maricá, garante que, mesmo com o aumento dos preços, não mudaria os hábitos de consumo.
Frederico de Souza Bezerra, contador, de 31 anos, de Maricá, Rio de JaneiroArquivo pessoal
"Dificilmente eu conseguiria substituir bares e restaurantes por bebidas em casa, pois costumo beber somente fora de casa", sustenta.
Bezerra acredita que o impacto deveria ser absorvido pela indústria. "Na minha opinião, a indústria deveria absorver, por se tratar de grandes empresários, com maior poder econômico. Se esse aumento impactar os estabelecimentos, poderia quebrar pequenos comércios, assim como afetar a população em geral."
Produtos atingidos
Entre os itens afetados pelo Imposto Seletivo estão:
- Produtos fumígenos: cigarros, charutos, cigarrilhas e outros produtos derivados do tabaco;
- Bebidas alcoólicas: cerveja, vinho, cachaça, uísque e outras bebidas alcoólicas;
- Bebidas açucaradas: principalmente refrigerantes;
- Veículos, aeronaves e embarcações: automóveis, barcos e aviões particulares, taxados conforme critérios de eficiência energética e poluição;
- Apostas e jogos: concursos de prognósticos, loterias e fantasy sports;
- Combustíveis fósseis e bens minerais: petróleo, gás natural, carvão mineral e minério de extração no solo.
Apesar de os produtos sofrerem com o imposto, especialistas destacam que eles não terão necessariamente a mesma alíquota, que será definida posteriormente, de acordo com cada produto.
Receio da perda de clientes
Marcus Carnevale, de 40 anos, dono da Bro Art e Burguer, localizada em Botafogo, Zona Sul do Rio, afirma que ainda é difícil estimar o aumento nos preços.
Marcus Carnevale, de 40 anos, dono da Bro Art e Burguer, localizada em Botafogo, Zona Sul do RioArquivo pessoal
"Ainda é difícil calcular exatamente, porque dependemos de como essa mudança vai chegar aos diferentes fornecedores e de como ela vai impactar toda a cadeia", frisa. Apesar disso, o comerciante estima, inicialmente, um aumento de 10% a 15% nos custos do estabelecimento.
Sobre a redução de custos, Carnevale conta que hoje a margem é pequena.
"Praticamente tudo aumentou: luz, água, gás, insumos e impostos, além de despesas trabalhistas, como FGTS. São gastos essenciais para manter o estabelecimento funcionando e não temos muito como cortar sem comprometer a operação. Já trabalhamos buscando economizar onde é possível, então qualquer novo aumento acaba sendo bastante difícil de absorver", diz.
Para ele, o maior receio é a mudança no comportamento dos clientes.
"O nosso maior medo é que os preços mais altos façam com que as pessoas reduzam o consumo ou passem a frequentar menos bares e restaurantes. O cliente também está sentindo o aumento do custo de vida e começa a escolher mais onde e quanto vai gastar", destaca.
"Ao mesmo tempo, não podemos sofrer por antecipação. Vamos precisar acompanhar o mercado, entender o comportamento dos consumidores e fazer os ajustes necessários quando as mudanças realmente acontecerem", explica.
Arnaldo Di Blasi, de 43 anos, CEO da Di Blasi Pizzas, relata que a rede já prevê um impacto nas vendas com o Imposto Seletivo.
Arnaldo Di Blasi, CEO da Di Blasi PizzasArquivo pessoal
"Acreditamos que haverá algum impacto, principalmente porque o Imposto Seletivo incidirá sobre bebidas açucaradas, como os refrigerantes, que têm uma participação importante no consumo associado à pizza. Também haverá impacto sobre as bebidas alcoólicas", pontua.
"Precisamos aguardar a definição das alíquotas e entender como a indústria e os fornecedores irão absorver ou repassar essa nova tributação. Acreditamos que pode ter um possível efeito indireto, pois qualquer aumento generalizado de preços pode vir a afetar o poder de compra e o comportamento do consumidor, que já está mudado por causa de outras influências, como o efeito das canetas emagrecedoras, e isso precisa ser considerado", afirma.
Já Felipe Vecchi, de 36 anos, fundador da Temakeria Universitária e sócio do GYOM, defende que é possível tentar alternativas antes de repassar o aumento ao cliente.
Felipe Vecchi, de 36 anos, fundador da Temakeria Universitária e sócio do GYOMArquivo pessoal
"É aqui que se ganha o jogo. Antes de mexer no preço para o cliente, você aperta a gordura da operação: compra melhor renegociando com fornecedor, corta desperdício na cozinha, enxuga a ficha técnica, revê embalagem e remonta o combo para puxar o item de melhor margem", explica.
"No delivery ainda tem eficiência de rota e de comissão de app. O imposto novo dói, mas ele obriga o dono a fazer o dever de casa que muita gente empurrou com a barriga. Restaurante organizado sente o baque, mas recalcula rota; restaurante bagunçado é que quebra antes mesmo de perceber o porquê."
Vecchi também alerta que é preciso ter um equilíbrio na hora de absorver o aumento.
"A regra é uma só: o cliente não pode pagar a conta inteira do governo sozinho, e o dono não pode absorver tudo e quebrar. O jogo será dividir isso com inteligência."
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