Sede do Flamengo na Gávea, Zona Sul do RioReprodução / Google Street View

Rio – A ONG Educafro entrou com processo contra o Flamengo pedindo uma indenização em R$ 100 milhões por danos morais coletivos. A instituição acusa o clube da Gávea de praticar racismo estrutural há décadas em suas políticas administrativas. Na petição, a organização argumenta sobre aspectos como os preços dos ingressos das partidas, que resultaria em uma elitização recente dos estádios, subvalorização de ídolos negros, entre outros casos.
O texto de 38 páginas, obtido pelo DIA, ainda conta com uma lista de pedidos. Entre eles, a criação de uma comissão de igualdade racial com participação da sociedade civil, a implementação de cotas raciais nos cargos de direção e liderança, programas de educação antirracista para dirigentes, funcionários e atletas e democratização no acesso aos jogos do time, com entradas sociais a R$ 10 e gratuitas para estudantes da rede pública.
Segundo a Educafro, o Flamengo carrega consigo "marcas profundas de racismo que permeiam o futebol brasileiro" e destacou que houve "inúmeros casos de racismo velado" entre os anos 1940 e 1980, envolvendo atletas icônicos como os meias Adílio (1956-2024) e Andrade, que teriam sido "invisibilizados nas celebrações oficiais e esquecidos nas homenagens públicas".
A associação afirmou que no último mês de março, o presidente do clube, Luiz Eduardo Baptista, "classificou como 'adequado' o discurso do presidente da Conmebol que minimizou o racismo nos estádios sul-americanos". Ela também ressaltou que em julho, o então novo diretor de base do Rubro-Negro, Alfredo Almeida, "proferiu declarações de cunho flagrantemente discriminatório", dizendo que "a África tem valências físicas" enquanto "a parte mental estaria em outras zonas da Europa, do globo".
'Não é nosso primeiro processo'
Ao DIA, o fundador da Educafro, Frei David, opinou que a repercussão do processo foi uma vitória por acender debate sobre o tema de racismo e cobrou medidas mais assertivas do clube quanto ao tema.
"Esse não é o nosso primeiro processo contra um time de futebol e racismo no esporte. Já tivemos vários outros. Esse está tendo repercussão porque o Flamengo é o Flamengo, e quero parabenizar pela repercussão, tanto de quem é a favor quanto quem é contra. Pra mim, os dois lados têm o seu papel. O problema do racismo só vai resolver quando os dois lados debaterem. Nós temos consciência que todas as vitórias do negro no Brasil só aconteceram depois de grandes polêmicas", disse.
Frei David ainda explicou que a ONG está disponível para diálogo. "A Educafro quer comunicar ao Flamengo que está aberta para assinar um termo de conciliação. Basta o Flamengo procurar nossos advogados. Queremos o melhor ao Flamengo e ao Brasil. E quero lembrar que o Brasil tem 55% da sua população de afrobrasileiros."
Posicionamento do Flamengo
A assessoria do Flamengo informou que a agremiação ainda não foi citada, e caso seja, responderá à ação. O clube ainda considerou a iniciativa "lamentável e oportunista", uma vez que o seu estatuto foi alterado recentemente para incluir regras que combatem o racismo estrutural.