Países do Golfo fizeram um 'esforço diplomático para convencer Trump a dar ao Irã a chance de mostrar 'boas intenções''Fars News Agency/Divulgação

Arábia Saudita, Catar e Omã dissuadiram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de atacar o Irã em represália à repressão das manifestações e o alertaram para as “graves repercussões” que tal ação teria sobre a região, informou um alto funcionário saudita nesta quinta-feira (15).
A República Islâmica foi sacudida por protestos que começaram em 28 de dezembro devido ao aumento do custo de vida e se transformaram em um movimento contra o regime teocrático no poder desde a revolução de 1979.
Organizações de defesa dos direitos humanos acusam o Irã de realizar uma repressão brutal que teria deixado milhares de mortos, em um país privado de acesso à internet há uma semana.
Segundo o último balanço da ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, pelo menos 3.428 manifestantes morreram desde o início do movimento. As autoridades iranianas não deram nenhum balanço oficial.
Nesta quinta-feira, a vida havia voltado ao normal em Teerã, segundo um jornalista da AFP na capital iraniana. Há vários dias não se registram grandes manifestações no país.
Segundo o funcionário saudita, os três países do Golfo realizaram “um esforço diplomático de última hora, longo e intenso, para convencer o presidente Trump a dar ao Irã a chance de demonstrar boas intenções”, disse, sob condição de anonimato.
Outro funcionário do Golfo confirmou a conversa e acrescentou que também enviou uma mensagem ao Irã, indicando que atacar as instalações americanas na região "teria consequências" para as relações regionais de Teerã.
O ministro iraniano das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, advertiu que seu país se defenderá “diante de qualquer ameaça estrangeira”, em uma conversa telefônica com seu homólogo saudita, o príncipe Faisal bin Farhan, e pediu “uma condenação internacional a qualquer ingerência estrangeira”.
O Ministério das Relações Exteriores da Suíça, que representa os interesses americanos no Irã, afirmou que o chefe de segurança iraniano, Ali Larijani, falou por telefone na quarta-feira com o alto diplomata suíço Gabriel Luechinger.
Berna se ofereceu para "contribuir para a distensão da situação atual", indicou o ministério.
Nesta quinta-feira, o Conselho de Segurança da ONU também tem prevista uma reunião sobre o Irã.
"Boa notícia"
Desde o início das manifestações, o presidente americano multiplicou as ameaças de intervenção militar.
No entanto, na quarta-feira, disse ter sido informado “por fontes muito importantes” de que “as matanças terminaram” e de que as execuções previstas de manifestantes “não irão ocorrer”.
“Vamos observar e ver o que acontece depois”, acrescentou, em referência a uma eventual ação militar.
A Casa Branca afirmou, nesta quinta-feira, que o Irã suspendeu 800 execuções previstas para o dia anterior, em meio às ameaças de Trump, mas declarou que "todas as opções seguem sobre a mesa", caso as autoridades iranianas matem mais manifestantes.
Tanto os Estados Unidos como organizações de defesa dos direitos humanos expressaram preocupação em particular com a situação de Erfan Soltani, um manifestante de 26 anos que temiam que fosse executado.
No entanto, o Irã negou nesta quinta-feira que o manifestante, detido no sábado, tenha sido condenado à morte ou possa ser executado.
Segundo o poder judicial iraniano, ele é acusado de atentar contra a segurança nacional e de propaganda contra o sistema, um crime que não prevê a pena de morte.
“Se for considerado culpado, será condenado a uma pena de prisão”, acrescentou o Poder Judiciário.
Em entrevista à emissora americana Fox News, Araqchi declarou que "não haverá execuções hoje nem amanhã".
Trump reagiu em sua rede social, Truth Social, onde afirmou: "esta é uma boa notícia. Espero que continue assim!".
Uma semana sem internet
Enquanto Washington parece ter recuado de uma eventual ação militar, o Departamento do Tesouro anunciou novas sanções contra funcionários de segurança iranianos e redes financeiras.
O Irã já é alvo de duras sanções internacionais por seu programa nuclear, que contribuíram para os problemas econômicos que desencadearam os protestos.
Segundo o ministro das Relações Exteriores, “reina a calma” no país e as autoridades têm “controle total” da situação.
A organização especializada em segurança digital NetBlocks afirmou nesta quinta-feira que o bloqueio da internet imposto pelas autoridades iranianas já dura uma semana.
Apesar do apagão, novos vídeos do momento culminante dos protestos vazaram na internet, com locais verificados pela AFP, nos quais é possível ver corpos alinhados no necrotério de Kahrizak, ao sul de Teerã, enquanto familiares desesperados buscavam seus parentes.