Quase 3,8 bilhões de pessoas podem enfrentar calor extremo até 2050Alex Halada / AFP

Quase 3,8 bilhões de pessoas podem enfrentar calor extremo até 2050 e países como o Brasil estarão entre os mais afetados por um aumento "drástico" na demanda por refrigeração, enquanto regiões mais frias também terão de se adaptar, relataram cientistas na segunda-feira (26).

Os pesquisadores, que publicaram suas descobertas na revista Nature Sustainability, estudaram as consequências de diferentes cenários de aquecimento no número de pessoas que poderão experimentar temperaturas consideradas extremamente altas ou baixas no futuro.

A demanda por expansão aumentou "drasticamente" em países gigantes como Brasil, Indonésia e Nigéria, onde centenas de milhões de pessoas não têm ar-condicionado ou outros meios de enfrentar o calor.

Mas mesmo um aumento moderado no número de dias mais quentes pode ter um “impacto severo” em países não acostumados a essas condições, como Canadá, Rússia e Finlândia, afirmaram cientistas da Universidade de Oxford.

Segundo o estudo, “a população que enfrenta condições de calor extremo deve quase dobrar” até 2050 se a temperatura média global subir 2°C acima dos níveis pré-industriais.

A maior parte do impacto será sentido ainda nesta década, à medida que o mundo se aproximar rapidamente da marca de 1,5°C, disse à AFP o principal autor do estudo, Jesus Lizana.

“A principal conclusão é que a necessidade de adaptação ao calor extremo é mais urgente do que se sabia anteriormente”, disse Lizana, cientista ambiental.

"Nova infraestrutura, como ar condicionado sustentável ou resfriamento passivo, precisa ser construída nos próximos anos para garantir que as pessoas consigam lidar com o calor perigoso."

Uma exposição prolongada ao calor extremo, muitas vezes chamada de "assassino silencioso", pode sobrecarregar os sistemas naturais de resfriamento do corpo, causando sintomas que vão de tontura e dores de cabeça a falência de órgãos e morte.

A maioria das mortes por calor ocorre de forma gradual, à medida que altas temperaturas e outros fatores ambientais atuam em conjunto para desestabilizar o termostato interno do corpo.

À medida que as mudanças climáticas estão se tornando ondas de calor mais longas e intensas, e o acesso à refrigeração - especialmente ao ar condicionado - será vital no futuro.

Todos 'perigosamente despreparados' 
O estudo, publicado na revista Nature Sustainability, projeta que 3,79 bilhões de pessoas em todo o mundo podem ficar expostas ao calor extremo até meados do século.

Além do Brasil, a República Centro-Africana, Nigéria, Sudão do Sul e Laos registaram o maior aumento de temperaturas perigosamente altas.

Isso aumentaria "drasticamente" a demanda de energia para refrigeração em países em desenvolvimento, onde as consequências mais graves para a saúde seriam sentidas. As estimativas mostram que Índia, Filipinas e Bangladesh tiveram populações mais impactadas.

O estudo também mostra que países tropicais ou equatoriais, especialmente na África, registrarão o maior aumento nos "dias de grau de refrigeração", indicador usado para calcular quantos dias desativar algum tipo de resfriamento, como ar condicionado ou ventiladores.

“Em termos simples, as pessoas mais desfavorecidas são as que arcarão com o maior peso dessa tendência de dias cada vez mais quente, como mostra nosso estudo”, disse à AFP a cientista do clima urbano e coautora da pesquisa, Radhika Khosla.

Por outro lado, mais nações ricas com climas tradicionalmente mais frios também “enfrentam um grande problema - mesmo que muitos ainda não percebam”, acrescentou.

Em um cenário de aquecimento global de 2°C, países como Canadá, Rússia e Finlândia podem ter forte queda nos "dias de grau de aquecimento", usados para calcular a necessidade de aquecimento interno.

Mesmo um aumento moderado nas temperaturas mais quentes seria sentido de forma mais aguda em países que não foram projetados para suportar o calor, disseram os autores.

Nesses países, casas e edifícios geralmente são construídos para maximizar a incidência de sol e reduzir a ventilação, e o transporte público opera sem ar-condicionado.

Alguns países de clima frio podem registrar queda nas contas de aquecimento, disse Lizana, mas, com o tempo, essas economias provavelmente seriam compensadas por custos de refrigeração, inclusive na Europa, onde o ar condicionado ainda é raro.

“Países mais ricos não podem cruzar os braços e presumir que ficarão bem - em muitos casos, eles estão perigosamente despreparados para o calor que chegará nos próximos anos”, afirmou.