Grupo tradicionalista nomeou quatro bispos na quarta-feira (01)Divulgação / FSSPX

O Vaticano confirmou a excomunhão de bispos, sacerdotes e leigos que aderirem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). O anúncio foi feito nesta quinta-feira (03). Os adeptos do grupo devem ser considerados cismáticos e excomungados, declarou a Santa Sé.
Trata-se do primeiro cisma da Igreja em 38 anos - e, como o anterior, envolve o grupo fundado pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. Roma ainda definiu regras para quem quiser deixar a excomunhão e "voltar à unidade", que incluem a rejeição a alguns dos fundamentos da ultratradicionalista FSSPX, como a aceitação formal do Concílio Vaticano II e a submissão ao papa.

Oficialmente, o Vaticano chamou a nomeação de quatro bispos pelo grupo tradicionalista, sem o aval de Leão XIV, de "ato de natureza cismática", isto é, de dissidência. Dessa forma, a partir de agora, "o sacramento da penitência por eles administrado e o matrimônio por eles assistido são inválidos", detalhou, em relação aos sacerdotes da fraternidade.

Os bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay, bem como os bispos recém-consagrados, incorreram "ipso facto" na excomunhão "latae sententiae", conforme o Vaticano. Os padres Pascal Schreiber, da Suíça; Michael Goldade, dos Estados Unidos; Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier, ambos da França, foram promovidos ao episcopado à revelia do papa.

A visão da FSSPX
Essa comunidade, fundada em 1970 por Lefebvre (1905-1991), reúne fiéis que se orientam por uma interpretação estrita da tradição doutrinal e litúrgica. Rejeita as evoluções da Igreja desde o Concílio Vaticano II (na década de 1960), defendendo um modelo de sociedade patriarcal e um ideal de Estado teocrático. Segue o rito "tridentino", caracterizado pelo uso do latim e por uma liturgia altamente codificada. Nas missas, o sacerdote fica de costas para os fiéis, voltado para o altar.

Atualmente, a FSSPX é influente em círculos conservadores no mundo todo, contando com 2 bispos, 733 sacerdotes, 264 seminaristas, 145 irmãos religiosos, 88 oblatos e 250 religiosas, representando 50 nacionalidades. Em seu site em língua portuguesa, a fraternidade "defende-se de qualquer acusação de cisma e considera, apoiando-se em toda a teologia tradicional e no ensinamento constante da Igreja, que uma consagração episcopal não autorizada pela Santa Sé - quando não é acompanhada nem de uma intenção cismática, nem da colação da jurisdição não constitui ruptura da comunhão". E alega necessidade pastoral para as ordenações, por causa de seus fiéis e da idade de seus bispos.

Há retorno?
Ao contrário do que ocorreu no cisma anterior com o grupo de Lefebvre, em 1988, que exigiu a análise de uma comissão vaticana, até o aval de Bento XVI, o Dicastério para a Doutrina da Fé já definiu ontem como acolher quem quiser "retornar à unidade". Conforme as regras, o sacerdote que decidir deixar a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, disposto a aceitar o Concílio Vaticano II e a legitimidade do novo missal (em língua vernácula), embora permaneça vinculado ao rito antigo (em latim), deverá "encontrar um ordinário (bispo diocesano ou um superior de institutos religiosos ou sociedades de direito pontifício) disposto a acolhê-lo ad experimentum".
Em seguida, o sacerdote deverá "escrever de próprio punho" ao papa uma carta na qual se apresente e peça a remissão das censuras em que incorreu por ter recebido a ordenação de um bispo excomungado ou irregular - além de apresentar uma série de documentos e jurar fidelidade total ao papa, se comprometendo a não atacá-lo publicamente.

Já a aplicação de uma pena aos leigos "deve ser avaliada caso a caso". Quem frequentar as atividades da FSSPX "por motivos litúrgicos ou espirituais" e os que "não rejeitam o Magistério nem a autoridade do Romano Pontífice" não serão punidos, "uma vez que a imputabilidade exige plena consciência e consentimento deliberado". No entanto, o Vaticano também é claro ao pedir que os fiéis católicos agora deixem de participar "das celebrações e atividades promovidas pela referida Fraternidade Sacerdotal São Pio X".

Já os leigos com ligação direta com a Fraternidade ficam sujeitos à excomunhão. Para voltar à Igreja Católica, devem procurar o bispo da sua região e fazer "um ato formal de plena adesão à doutrina e de obediência à hierarquia". O Vaticano finaliza a declaração de excomunhão afirmando que "a Igreja, como mãe atenciosa, acolherá com sincero afeto e viva solicitude todos aqueles que desejam retornar à plena comunhão".