Niterói: Em 2021, Teatro Leopoldo Fróes, já desativado, foi consumido pelas chamas e destruído por completoReprodução

Niterói - A retomada do movimento de abertura do Teatro Leopoldo Fróes, no centro de Niterói, foi anunciada pelo prefeito de Niterói, Rodrigues Neves, no último dia 20 de abril - quando lançou o Programa Niterói que Queremos, durante uma um encontro com jornalistas, na Prefeitura de Niterói.

"A recuperação do Teatro Leopoldo Fróes não é apenas uma boa notícia — é uma decisão que carrega peso histórico, cultural e social para a cidade de Niterói. Fechado há décadas e marcado pelo abandono, sua reabertura representa mais do que a recuperação de um prédio: é o resgate de um espaço que já foi um dos mais importantes polos de produção artística do Estado do Rio de Janeiro", disse o jornalista e diretor de teatro, Mario Sousa.

Niterói é uma das cidades culturais mais ativas do país. São milhares de profissionais ligados ao teatro, à música e às artes em geral, além de dezenas de grupos e companhias de teatro em plena atividade. Estima-se cerca de 3 mil trabalhadores ligados ao teatro. Apesar dessa vitalidade cultural, a cidade carece de um espaço, prioritariamente, para atender a classe artística da cidade. A reativação do Leopoldo Fróes é um passo decisivo nessa direção.
"A recuperação e abertura Teatro Leopoldo Fróes, anunciada pelo prefeito Rodrigo Neves, representa não apenas o resgate de um patrimônio histórico, mas também um gesto de reconhecimento à força e à importância da cultura produzida na cidade. Mais do que uma obra, trata-se de um compromisso com o futuro e com a identidade cultural de Niterói", concluiu Mario.
SOBRE O TEATRO LEOPOLDO FRÓES

A história do teatro começa com a doação do terreno na Praça da República, em 1947, do Estado do Rio de Janeiro para a Arquidiocese de Niterói, para ali funcionar um Centro Social e Assistencial da Igreja. A mudança começou, no início da década de 60, quando a Associação Recreativa Comércio e Navegação, do Sindicato dos Marítimos e Operários Navais arrendou o imóvel e transformou no Teatro Alvorada.

Com direção de Albino Santos, metalúrgico e desenhista, o local foi palco de reuniões sindicais e apresentações culturais. A intensa movimentação artística e social incomodou os órgãos de repressão da época da Ditadura Militar. Albino acabou suspenso do estaleiro, onde trabalhava e, em 1973, o teatro foi fechado pelo DOPS. Uma década de grande movimentação no Alvorada.

A Prefeitura de Niterói assume o espaço, no mesmo ano do fechamento, batizando o teatro de Leopoldo Fróes, por meio do INDC – Instituto Niteroiense de Desenvolvimento Cultural - em homenagem ao grande ator brasileiro, nascido em Niterói. O local transformou-se em um dos maiores laboratórios culturais do Estado do Rio de Janeiro. O teatro viveu seu auge, com programação intensa e participação de grandes nomes da cultura brasileira. Era mais que um palco: era um verdadeiro espaço aberto à experimentação, à formação e ao encontro de diferentes linguagens artísticas.
Foi nesse teatro que nomes da MPB se revelaram, como Zélia Duncan, Almir Satter e Marcos Sabino. Outros tantos deslancharam sua carreira, como Zizi Possi, Elba Ramalho, Jards Macalé e Pepeu Gomes. Lá também estiveram peças de teatro com atores renomados, podendo a plateia niteroiense assistir a sucessos como Tudo bem no ano que vem, com Tarcisio Meira e Glória Menezes; Pato com Laranja, estrelado por Paulo Autran; e a primeira montagem de Blue Jeans.

Esse sonho, no entanto, começou a se desfazer no início da década de 1990, quando o teatro foi, mais uma vez fechado, agora, pela Mitra Arquidiocesana, que retomou o imóvel alugado a Prefeitura de Niterói. A Mitra proíbe qualquer atividade cultural no local. Houve várias manifestações contra este fechamento sem eco tanto do Poder Público como da Igreja. Simbolicamente, o maior protesto foi uma manifestação “SOS Leopoldo Fróes” pela classe artística de Niterói.

Décadas se passaram. O teatro foi lacrado e abandonado e permanece até hoje sem cumprir o papel cultural que marcou sua história. Desde então, o abandono do espaço expõe uma omissão que atravessou diferentes gestões e instituições. O incêndio de 2021 apenas escancarou o estado crítico de um patrimônio que nunca deveria ter sido negligenciado.