Mônica Costa Boruchovitch é escritora, psicóloga e mestre em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)Divulgação
O livro 'Ninguém é triste o tempo todo' fala desse mergulho no rio da vida. A escrita foi minha maneira de dar contorno àquilo que parecia sem nome. No livro, busco descrever o processo de luto como uma vivência particular, pois é preciso chegar naquilo que temos de único para, só então, atingir o que é universal: a dor da perda. O modo de sentir e lidar com a dor é pessoal — “dor não se compara, não se julga”, como escrevi na obra — no entanto, as perdas e o sofrimento causado por elas são universais. É inerente ao ser humano. A finitude é a grande questão que nos une.
A tendência contemporânea é valorizar o efêmero, o prazer imediato. A falta de apego e de investimento afetivo para evitar a dor são características de nosso tempo.
“Não dá certo, disse o vento.
Não funciona, disse o rio…”
Nesse cenário de fugas emocionais, encontrei na escrita um modo de permanecer. De dizer sim ao que dói, sem negar o que pulsa. Por isso, a importância de encontrar um modo de expressar afetos e emoções, já que é o sentir que nos faz humanos e dá a sensação de pertencimento. Na ânsia de se blindar da dor, o que estamos vendo são pessoas embotadas e paralisadas diante do futuro, dos desafios, das alegrias e das possibilidades que a vida oferece.
A transformação de sentimentos em palavras é um ato de criação. A realidade nos impacta de tal forma que é preciso dar um passo atrás e inventar o que aconteceu, como disse maravilhosamente Clarice Lispector em Paixão segundo GH: “vou criar o que me aconteceu”.
Quando coloco o indizível em palavras, trago leveza. Escrever é meu modo de enxergar o mundo e me manter inteira. Ao criar o que me aconteceu, abre-se espaço nesta ficção para que o leitor se identifique com o processo e reconheça ali sua dor real. O processo de luto não é linear, pelo contrário, é um caminho tortuoso em que algumas vezes se volta ao ponto de partida. E é, o tempo todo, permeado pela vida que acontece ao redor. Sim, tem muita alegria, crianças que nascem, há ternura e leveza durante tudo isso.
Falar sobre a dor também é uma forma de rompê-la. Ao compartilhar o que se sente, cria-se uma ponte entre mundos internos, e essa conexão cura, aos poucos. Há algo profundamente libertador em perceber que outras pessoas passaram por dores semelhantes e, ainda assim, continuaram — não iguais, mas inteiras em outra forma.
O livro 'Ninguém é triste o tempo todo' nasceu desse processo de elaboração emocional. Dá espaço para o leitor se encontrar em meio a sua dor, oferece uma mão para você segurar enquanto faz a travessia “pelos mangues de onde brotam as emoções”. Abraça, dá tempo para se emocionar, cada um à sua maneira, e mais importante: puxa para o movimento em direção à vida.
“A gente veio nessa vida pra tentar ser feliz. Tentar todos os dias.
Gente é pra brilhar.”

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