Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração Divulgação
Naquele instante, todos os planos, planilhas e metas perderam o sentido. Eu não era mais prefeita. Eu era apenas uma mãe diante do incontrolável.
E foi ali, na escuridão, que Saquarema reforçou a sua alma. Recebi uma corrente de fé de católicos, evangélicos, umbandistas, espíritas, ateus, agnósticos, todos oraram por meu menino. Nunca me esqueci da força daquela união. Foi a demonstração mais clara de que a fé, em sua essência, não separa. Pelo contrário, aproxima. Essa experiência transformou permanentemente minha visão sobre o que significa governar. A dor me ensinou sobre a força do coletivo e me mostrou que uma gestão pública sensível não pode ignorar a dimensão espiritual que une e fortalece uma comunidade.
A partir dessa vivência pessoal, nasceu uma política pública. Entendi, com o coração e com a razão, que um Estado laico não pode ser um Estado cego à espiritualidade do seu povo. Laico, sim.
Indiferente, jamais. Por isso, na nossa gestão em Saquarema, criamos um calendário de eventos que celebra todas as expressões religiosas, fortalecendo a conexão com a população. Demos apoio institucional às festividades de Santo Antônio, ao festival gospel e às celebrações para Iemanjá, entendendo que cada uma dessas manifestações é parte indissociável da nossa identidade cultural.
Quando a imagem de Iemanjá foi vandalizada num ato de intolerância, nossa resposta foi imediata e simbólica. Não apenas restauramos o monumento, mas mantivemos a estátua danificada ao lado, como um lembrete permanente da importância do respeito à diversidade e da nossa luta contra o preconceito.
Aquela foi uma decisão de gestão comprometida com a paz social. Além disso, inauguramos a Praça da Bíblia e fortalecemos o apoio ao Círio de Nazareth, que aqui em Saquarema é o mais antigo do Brasil.
Não se tratava de agradar a todos, mas de reconhecer que todas as crenças formam o tecido social que sustenta uma cidade. A espiritualidade, quando respeitada e estimulada, promove cuidado com os mais velhos, empatia com os mais vulneráveis e generosidade entre vizinhos. Em outras palavras, promove o bem-estar do cidadão e fortalece a cidadania.
Essa visão de respeito e inclusão não é isolada.
Vemos exemplos inspiradores em outras cidades que também compreenderam a importância de tratar a diversidade religiosa como pauta de governo. Em Juiz de Fora (MG), a prefeita Margarida Salomão instituiu o Plano Municipal de Políticas de Promoção e Defesa da Diversidade Religiosa, que inclui o mapeamento de templos e a criação de canais para denúncias de intolerância, uma ferramenta essencial de políticas públicas afirmativas.
Já em Paracambi (RJ), a prefeitura inovou ao criar uma Secretaria Municipal dedicada à Diversidade Religiosa, Inclusão e Combate ao Preconceito, uma iniciativa corajosa que eleva o tema a um patamar estratégico na administração e ajuda a combater preconceitos.
Cuidar da dimensão da fé é cuidar das pessoas.
Governar com respeito à espiritualidade não é converter alguém, é fazer política pública com alma. Como prefeita, vi de perto o imenso impacto social que as comunidades de fé promovem todos os dias: acolhendo, cuidando, pacificando. Reconhecer e apoiar essa força não é uma concessão, é uma estratégia inteligente e, acima de tudo, profundamente humana para construir uma sociedade mais justa e solidária.
Você conhece algum projeto que está transformando a realidade na sua cidade através do diálogo e do respeito? Compartilhe comigo pelas minhas redes sociais, que você encontra no meu blog (https://manoelaperes.com.br). Vou adorar conhecer outras histórias de sucesso.
Beijo e até a próxima coluna!

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