RomárioDivulgação

Em muitas cidades brasileiras, uma cena se repete todos os dias: mães e pais carregando filhos com deficiência no colo porque a rampa do ônibus não funciona. Famílias enfrentando filas intermináveis e uma burocracia enorme para renovar laudos que já comprovam a deficiência permanente. Jovens que desistem de estudar porque a escola não tem profissional de apoio, intérprete de Libras ou acessibilidade mínima. Nada disso é exceção. É a regra. E mostra como o Brasil ainda cobra das pessoas com deficiência um esforço desumano para existir.
Segundo o IBGE, mais de 14,4 milhões de brasileiros declararam ter algum tipo de deficiência. Isso significa quase 7% da população. Mas a cada passo fora de casa, essa parcela imensa da sociedade encontra barreiras que não deveriam existir, como calçadas quebradas, prédios públicos sem acessibilidade, transporte coletivo precário, preconceito disfarçado de normalidade.
Aprendi essa realidade dentro de casa, quando minha filha Ivy nasceu com síndrome de Down. Descobri que a deficiência não limita a vida. O que limita é a falta de apoio, de respeito e de oportunidades. A partir dessa experiência, assumi o compromisso de transformar dor em ação e exclusão em cidadania.
Em 2015, tive a honra de relatar no Senado a Lei Brasileira de Inclusão (LBI). Essa lei, construída de forma coletiva por famílias, especialistas e movimentos sociais, foi um marco histórico. Ela nos lembra diariamente que as pessoas com deficiência são cidadãs plenas de direitos. Hoje, dez anos depois da sanção da LBI, celebramos avanços, mas sabemos que o abismo entre lei e vida real ainda é enorme.
Basta ouvir as famílias e suas histórias de luta e exclusão. Como a das mães que abandonaram o trabalho para cuidar sozinhas do filho com deficiência. E de tantos jovens cadeirantes ou com deficiências visual e auditiva que têm o sonho de trabalhar, mas encontram portas fechadas pela falta de oportunidades e, também, de acessibilidade nas empresas públicas e privadas. Isso para citar apenas alguns exemplos.
O Banco Mundial já alertou que países que não incluem pessoas com deficiência perdem de 3% a 7% do PIB em produtividade desperdiçada. Mas o dado mais importante não está na economia. Está na dor humana. Cada barreira é uma oportunidade roubada. Cada direito negado é um sonho interrompido.
Tirar a lei do papel para que vire realidade não é tarefa simples, mas é urgente. A inclusão precisa deixar de ser exceção para se tornar prioridade de governo, de empresas, de escolas e de toda a sociedade. Quando uma cidade investe em acessibilidade, não é só a pessoa com deficiência que se beneficia. É o idoso que consegue caminhar com segurança, a gestante que se locomove com mais tranquilidade, a mãe que empurra um carrinho de bebê, qualquer cidadão que enfrenta uma limitação temporária. Portanto, acessibilidade não é gasto, é inteligência coletiva. Quando a inclusão é regra, todos ganham.
No próximo domingo, 21 de setembro, será o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, mas eu não escrevo este artigo para celebrar. Escrevo para lembrar que ainda somos um país que exige demais de quem já enfrenta tanto, transformando a busca por direitos em uma maratona diária. Precisamos transformar essas histórias em ação concreta, para que não sejam esquecidas entre discursos e promessas. Porque a dignidade não pode ser privilégio de alguns, deve ser realidade para todos.
Romário Faria é ex-jogador de futebol, tetracampeão mundial, ex-deputado federal e atual senador pelo Rio de Janeiro, reeleito em 2022. No Congresso Nacional, atua com firmeza na defesa dos direitos das pessoas com deficiência e de quem convive com doenças raras, na ampliação do acesso a um sistema público de saúde de qualidade e no fortalecimento do esporte em todo o país.