Richard Munhozdivulgação

Falar de suicídio nunca é simples. Ao mesmo tempo, silenciar é ainda mais perigoso. Setembro Amarelo nos convoca a enfrentar esse tema com coragem, responsabilidade e, sobretudo, com sensibilidade.
A psicanálise nos ensina que o sofrimento humano não se resume a diagnósticos ou estatísticas. Ele nasce na trama singular de cada sujeito, atravessado por perdas, frustrações e pela relação com o outro. Freud (1917), em Luto e Melancolia, já havia mostrado que a dor pode voltar-se contra o próprio Eu, transformando-se em uma autodestruição silenciosa. Nesse sentido, o suicídio não deve ser visto apenas como um “desejo de morrer”, mas como um apelo desesperado diante da impossibilidade de seguir vivendo tal como se está.
O suicídio pode ser entendido como um ato extremo de comunicação. Lacan (1964) lembrava que o sujeito só existe em relação ao olhar e à palavra do outro. Quando não encontra reconhecimento, quando sua voz se perde no vazio, resta apenas o ato. É um grito sem palavras que clama por escuta.
Do ponto de vista social, os números reforçam a urgência: segundo a Organização Mundial da Saúde OMS (2023), mais de 700 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano no mundo, sendo esta uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Por trás de cada número, há uma história única que poderia ter encontrado outro destino se tivesse sido escutada a tempo.
Para passarmos dos números às ações, é preciso também desfazer mitos, perguntar diretamente, com responsabilidade, sobre ideação suicida não “planta” a idéia, ao contrário, abre uma via de simbolização para uma dor que, sem palavras, tende a transbordar em ato. A própria pesquisa em neurociências sugere que nomear estados afetivos intensos ajuda a reduzir a hiperativação de circuitos de ameaça e engajar redes pré-frontais de regulação, o que corrobora a aposta psicanalítica na palavra como via de elaboração.
Em termos winnicottianos, a comunidade — família, escola, serviços de saúde e redes de apoio — pode funcionar como um “ambiente suficientemente bom”, oferecendo holding e continuidade, enquanto políticas públicas garantem acesso e diminuem o isolamento. Prevenção é tarefa coletiva: cada gesto de acolhimento, cada pergunta feita com respeito e cada escuta sem pressa podem restituir ao sujeito a experiência de que vale a pena permanecer.
Falar em prevenção, portanto, é falar em escuta. Não apenas ouvir, mas sustentar um espaço onde a dor possa ser dita sem julgamento. A psicanálise oferece esse lugar, um tempo para que o sujeito possa transformar em linguagem aquilo que parecia insuportável. Escutar é abrir brechas para a vida.
O Setembro Amarelo nos lembra que ninguém deve carregar sozinho a angústia de viver. Escutar o outro, reconhecer sua singularidade e abrir espaço para a palavra são gestos que salvam vidas. Se o suicídio é, muitas vezes, um silêncio radical, nossa tarefa é opor-lhe a presença viva da escuta.
Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento intenso ou pensando em suicídio, ligue para o CVV – 188. O atendimento é gratuito, 24 horas por dia, em todo o Brasil.
Richard Munhoz é psicanalista, psicopedagogo, neuropsicopedagogo, mestre e doutor em Ciências Médicas