Washington Quaquá: Segurança pública sem hipocrisia
Não há contradição entre defender direitos humanos e a presença firme do Estado em territórios ocupados. Queremos uma nova visão progressista de política de segurança pública no país
"Quero inclusive com ele criar pontes de diálogo com os militares! Viva a democracia!", concluiu Washington Quaquá - Foto: Arquivo MAIS
"Quero inclusive com ele criar pontes de diálogo com os militares! Viva a democracia!", concluiu Washington QuaquáFoto: Arquivo MAIS
Nós, que vivemos, trabalhamos e sonhamos com um Brasil seguro, não podemos ignorar a realidade das nossas favelas e territórios dominados pelo crime armado.
A megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio, com 122 mortos, entre eles 5 policiais, foi a ação mais letal da história recente. Ainda assim, pesquisa Atlas Intel mostra que a maioria da população aprova essas operações: 55,2% dos brasileiros, 62,2% dos moradores do Rio e 87,6% dos moradores de favelas.
Isso não é insensibilidade com a vida perdida, é exaustão de quem vive sob pedágio, ameaça a filhos e toque de recolher impostos por criminosos. O crime organizado abandonou a imagem romântica do "bandido que protege a comunidade" e hoje é um poder armado que oprime, explora e mata, ocupando o lugar simbólico de "vencedor" onde o Estado não chega. Sabemos disso porque vivemos nessas favelas ou viemos de lá.
Segurança pública é um tripé, com três eixos que não são opções ideológicas, mas sim partes de uma mesma estratégia.
O primeiro eixo é a força do Estado democrático de Direito no território. Em muitos lugares, o monopólio da força não está com o Estado, mas com o fuzil do tráfico ou da milícia. Em termos simples, policial, guarda municipal e agente de segurança deveriam ser guardiões da lei e da vida, assegurando a liberdade dos moradores, não exército de ocupação. Quem pega em armas de guerra para confrontar forças legais não é herói de periferia, é inimigo da sociedade, inclusive da juventude pobre usada como escudo humano.
O segundo eixo é a ocupação social, cultural e econômica do território. Segurança não se faz só com viatura. Em Maricá (RJ), construímos uma rede robusta de políticas sociais, com mobilidade gratuita, renda básica municipal e inclusão produtiva; o Tarifa Zero transformou o transporte em direito e o município é o único do Brasil a cumprir a lei 10.835, com Renda Básica de Cidadania paga em moeda social Mumbuca. Isso também é disputar referências de sucesso: se em muitas comunidades o "modelo de sucesso" é o homem armado na moto de luxo roubada, em Maricá são os estudantes do Passaporte Universitário, programa que possibilita jovens da periferia formarem-se em diversas profissões —muitos deles hoje são médicos atendendo sua própria comunidade.
O terceiro eixo é aquele que o presidente Lula e o ministro Fernando Haddad (Fazenda) estão mostrando como fazer: inteligência e tecnologia para atingir o dinheiro do crime organizado. As organizações criminosas estão no mercado formal, comprando postos de combustíveis, empresas de logística, redes varejistas, fazendas e fundos de investimento; se o Estado ficar apenas na troca de tiros na ponta, seguirá enxugando gelo.
Operações como a Carbono Oculto e a Poço de Lobato, coordenadas por Receita e Polícia Federal, miraram esquemas bilionários de sonegação e lavagem ligadas a organizações criminosas e bloquearam dezenas de bilhões de reais em recursos sem dar um tiro. Como disse Haddad, se o Estado não asfixiar financeiramente o crime organizado, haverá reposição infinita de mão de obra barata na ponta; o fuzil da viela é pago com dinheiro que circula em operações aparentemente limpas.
Não há contradição entre defender direitos humanos e defender a presença firme do Estado nessas frentes. Falta agora dar o passo que completa o tripé: assumir que o Estado precisa garantir o controle do território, com forças de segurança profissionalizadas, respeitosas da lei e dos direitos, mas capazes de enfrentar quem manda nas favelas pela base do terror armado. Não é uma escolha confortável; é partir da análise da situação concreta, não de desejos abstratos.
Queremos travar esse debate sem hipocrisia no seio da sociedade e dentro do nosso partido, o PT, para consolidarmos uma nova visão progressista de política de segurança pública.
Washington Quaquá é prefeito de Maricá (PT-RJ), é vice-presidente nacional do partido
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.