O esvaziamento das palavras
Acordei pensando em quem inventou a palavra 'amor'. No que sentiu. No que mudou nele o sentimento sentido. Em alguma vitória, talvez. O amor é a vitória sobre o egoísmo.
Acordei pensando em quem inventou a palavra 'amor'. No que sentiu. No que mudou nele o sentimento sentido. Em alguma vitória, talvez. O amor é a vitória sobre o egoísmo. As vitórias são simbólicas no existir humano. A mais simbólica delas é a vitória sobre nós mesmos.
A palavra 'amor' vem sendo esvaziada. Dizer "eu te amo" virou quase uma saudação. Ou um desencargo. Ou um fechar as portas. Não poucas vezes, quando não queremos mais, soltamos um "eu te amo, mas preciso ir".
O amor não vai. Fica. Fica, mesmo quando vai viver outro lugar. Fica no sentir. Fica no se comprometer. O egoísmo vai. Vai aonde há mais tesouros. Aonde há mais glórias. Aonde há mais espetáculos. O amor prefere os silêncios onde há o pensar.
'Pensar' é outra palavra esvaziada. Quando eu digo "pensei muito", talvez tenha pensado nada. Quando eu insisto "pense eu pouco mais", eu quero que o outro, ao pensar, possa chegar ao mesmo lugar em que estou. E quem garante que o lugar certo é o onde estou?
O amor amizade também anda nas andanças do vazio. O amigo se tornou um degrau para o meu egoísmo. Agrado a quem preciso. A quem é útil. A quem alimenta, de alguma maneira, o meu egoísmo. A beleza da amizade está na inutilidade. Ergo uma tenda de amor para que eu possa ter mais espaços de aconchego para receber meu amigo. Abro as comportas de mim para o outro estar. E ocupo espaço no sagrado do outro. Sem querer coisas. Sem esperar benefícios, que não o do braço que abraça e das mãos que se dão para poetizar a vida juntos.
'Fraternidade' é palavra que expressa esses sentimentos. De amigos e de humanidade. Deus, ao inventar o humano, o inventou carente de humanidade. Ninguém é, sozinho. É no outro que moram as minhas aprendizagens, das mais simples às mais complexas. Ando por terem me ensinado a andar. Alimento a mim e aos outros por ter aprendido. Falo palavras por alguém ter falado palavras, quando palavras em mim careciam de ter significado.
Fico pensando que quem inventou a palavra 'amor' pode ter sido uma mãe. Que, tendo nos braços um ser tão frágil, tão desprovido de condições de prosseguir vivendo sem cuidados, entendeu o cuidar.
Quando amamos, damos condições ao outro de ser ele mesmo. Um filho nasce de uma mãe, mas não é a mãe. Ele se nutre dela e, depois, nutre o mundo da sua presença amorosa. Os amigos não são um, embora assim se pareçam na tal tenda das inutilidades. Quando se olham, quando se escutam, quando se ocupam de não desejar nada além de estar. Estão. Cada um do seu jeito. Porque não há jeito igual de estar no mundo. E cada um compreendendo que o jeito de estar vai mudando com as mãos dadas e com os abraços.
Quem será que inventou a palavra 'egoísmo'? Palavra tão cheia de significados. Vida tão vazia de sentidos. O egoísmo é mais ausência que presença. No mistério de Deus, é o amor que nos faz permanecer. Que nos faz irmos além dos desejos de sobreviver e procriar, comum aos outros animais. Aos humanos foi entregue o pensar. E o compreender o simbólico. E o colaborar com a continuidade da criação. Os animais são o que são. Os humanos são construtores de mudança. Cultuamos o belo da natureza e construímos o belo da cultura humana. Olhamos para trás e celebramos, não os egoístas, mas o que deixaram um rastro de amor na humanidade.
Os egoístas não fazem mal apenas ao mundo, mas a si mesmos. Ninguém abraça a si próprio. Vejam a triste sina dos interesseiros. Ávidos de alguma migalha, se perdem na busca do que nunca encontrarão, porque são insaciáveis. O encontro mais bonito da humanidade mora no sentimento.
Acordei pensando em quem inventou a palavra 'amor'. E só de pensar resolvi encontrar em mim razões para não deixar de acordar. Hoje ainda quero encontrar amigos e dizer amor. Quero pensar nos alimentos de tantos que me trouxeram até aqui. E agradecer no quanto pude alimentar.
Quero prosseguir lutando a luta digna contra o esvaziamento das palavras e das relações humanas. Quero permitir, a mim mesmo, a lembrança de que a morte é ensinadora da vida.Tão ensinadora que me autorizo a deixar morrer o que faz morrer em mim a vida.
Dou às coisas o nome de coisas. E às pessoas a possibilidade de construírem comigo um caminhar bonito até onde tivermos pernas, até quando pudermos acordar...
Um dia acordaremos no bonito do mistério, onde o amor será simplesmente amor. "Mas, como será"? Perguntaremos. Se é mistério não há como saber. Então, é sentir. E viver cada amanhecer amanhecendo, também.
Só quem amanhece sente a vitória da palavra 'amor'.

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