Antônio Geraldo da SilvaDivulgação

Há um ponto que a sociedade evita encarar: quem adoece mentalmente deixa de ser visto como alguém. Perde a legitimidade social. Perde a voz. Perde lugar. Não por maldade explícita, mas porque o desequilíbrio mental incomoda e, portanto, é afastado. Pessoas sem estabilidade, sem previsibilidade, sem coerência plena são tratadas como se tivessem deixado de existir.
Isso seria apenas triste, se não fosse, sobretudo, irresponsável. Porque qualquer pessoa, em qualquer momento, mesmo sem histórico, pode experimentar um quadro psiquiátrico agudo. Não há imunidade, não há méritos individuais capazes de proteger alguém da vulnerabilidade da própria mente. Achar que “nunca aconteceria comigo” é ingenuidade através de autoconfiança.
O caso do jovem que entrou na jaula de uma leoa escancara esse ponto. Um rapaz diagnosticado com esquizofrenia, provavelmente em surto psicótico, caminhou para um espaço de risco sem compreender que estava em risco. E antes de ser devorado pela leoa, ele já tinha sido devorado pela negligência coletiva. Arado aos leões, no sentido literal e no sentido social. E, aqui, vale uma provocação que quase ninguém se permite fazer: se você fechar os olhos e imaginar que é capaz de domesticar um leão, e muitos se encantam com essa fantasia, romantizam animais selvagens, chamando-os de “filho pet”, tratam como extensão emocional de si, já se perguntou o que aconteceria se, um dia, você estivesse em um estado mental que remove sua consciência do óbvio? Se seu cérebro entrasse em colapso exatamente quando você acreditasse estar seguro diante de um animal que, por definição, não é doméstico?
Já imaginou ser destruído por aquilo que você acreditou ter controle? Já imaginou virar vítima do que você chamava de afeto, sem sequer perceber o risco porque sua própria mente deixou de avisar? Esse exercício mental não é para humilhar ninguém. É para localizar o ponto cego: quando a mente falha, tudo falha. E é justamente por isso que a crítica não deve se limitar aos que ocupam as arquibancadas, pedindo espetáculo, vibrando pelo “atire-o aos leões”. A crítica alcança todos aqueles que, podendo agir
estruturalmente, gestores, governantes, instituições, empresas, quem decide orçamento e política pública - preferem sustentar a lógica do improviso.
Porque enquanto hospitais psiquiátricos são fechados, hospitais de custódia enfraquecidos, políticas de cuidado desmontadas, e o tratamento é reduzido ao mínimo possível, a sociedade inteira continua empurrando pessoas adoecidas para arenas que elas não têm condições de compreender. As consequências estão aí: Pessoas atropeladas durante surtos, famílias esgotadas emocionalmente por confinarem seus próprios parentes para evitar tragédias, local de trabalho transformado em palco para quadros graves que ninguém reconhece ou sabe conduzir e jovens buscando a morte sem que ninguém perceba que já estavam em colapso há semanas.
O episódio do garoto de João Pessoa, infelizmente, não é exceção. É diagnóstico. E o diagnóstico revela uma sociedade que prefere reagir ao escândalo a prevenir o colapso. A responsabilidade é de todos; mas principalmente dos que têm poder real para mudar estruturas. Fingir neutralidade é perpetuar o problema. Adoecimento mental não é um fenômeno distante; é um risco humano universal. E não reconhecer isso custará mais vidas, mais famílias, mais tragédias com explicações tardias.
A pergunta permanece: por quanto tempo ainda vamos aplaudir das arquibancadas enquanto seguimos atirando pessoas, direta ou indiretamente, aos leões?
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria