Artigo Manoela PeresDivulgação

Oi, gente! Chegamos a dezembro. É impossível caminhar pelas ruas sem sentir aquela mudança na atmosfera. As luzes de Natal se acendem, as famílias começam a planejar a ceia e um sentimento de fraternidade ganha espaço em meio à correria do ano. Mas o Natal, na sua essência mais pura, não é sobre mesas fartas ou troca de presentes caros. É sobre acolhimento. É sobre olhar para o outro, especialmente para quem está mais vulnerável, com respeito e solidariedade. E é justamente esse espírito que deve guiar o nosso olhar para uma campanha fundamental que acontece neste mês: o dezembro vermelho.
Enquanto celebramos a vida, precisamos falar sobre como preservá-la. Dados recentes do Ministério da Saúde mostram um cenário que exige nossa atenção imediata: a sífilis continua crescendo de forma acelerada no Brasil, especialmente entre gestantes e jovens. Foram mais de 800 mil casos em gestantes registrados entre 2005 e 2025. Além disso, a epidemia de HIV e Aids ainda apresenta desafios enormes, com muitos jovens entre 15 e 25 anos baixando a guarda na prevenção. Como gestora pública e mãe, esses números não são apenas estatísticas para mim; são vidas, histórias e famílias que precisam de amparo, e não de julgamento.
Quando assumi a Prefeitura de Saquarema, deparei-me com um desafio que ia muito além da infraestrutura física da saúde: o estigma. Tínhamos um serviço de atendimento a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) que funcionava na conhecida "Casa Amarela". Embora a equipe fosse técnica e dedicada, o local carregava um peso social. Muitas pessoas deixavam de buscar o atendimento público humanizado ou o medicamento necessário porque tinham vergonha de serem vistas entrando lá. O preconceito era uma barreira física para o tratamento.
Entendi ali que fazer políticas públicas eficientes não é apenas comprar remédio ou contratar médico; é entender a cultura da cidade e ter a sensibilidade na gestão para derrubar muros invisíveis. A nossa resposta foi técnica e humana. Mudamos o serviço de lugar. Levamos o Serviço de Atenção Especializada (SAE) para o Verde Vale, em um espaço novo, ampliado, digno e discreto, ao lado da Cidade da Saúde. Mas não paramos nas paredes.
Transformamos a abordagem. O SAE passou a oferecer uma linha completa de cuidados: infectologia, hepatologia, psicologia e serviço social. Implementamos o acesso à PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e à PEP (Pós-Exposição), além de testes rápidos. Mas a grande virada de chave foi entender que precisávamos tirar o assunto de dentro do consultório. Se a "Casa Amarela" era estigmatizada, nós levamos a prevenção para onde o povo estava. O Carnaval, por exemplo, deixou de ser apenas festa para se tornar um momento estratégico de participação cidadã e conscientização, com distribuição de preservativos e informação leve, sem tabus. É isso que define uma gestão de sucesso: identificar o gargalo - que muitas vezes é o preconceito - e ter a coragem de corrigir.
Fico muito feliz em ver que não estamos sozinhos nessa caminhada e que outras cidades estão inovando para cuidar de quem mais precisa. Em Vitória (ES), a prefeitura foi destaque nacional com o projeto "Portas Abertas", premiado pelo Ministério da Saúde, que descentralizou a PrEP para a atenção primária, facilitando o acesso da população.
Aqui no nosso estado, a cidade de Japeri deu um exemplo fantástico de ação integrada com o projeto "Estação Saúde". A prefeitura, em parceria com a SuperVia, levou vacinação e testagem rápida para dentro da estação de trem. Em um único dia, fizeram mais de mil atendimentos! Isso é busca ativa, é entender que o trabalhador muitas vezes não tem tempo de ir ao posto de saúde, então a saúde pública precisa ir até ele. Casos de sífilis foram diagnosticados ali mesmo, no meio do trajeto para casa, permitindo o início imediato do tratamento.
Essas iniciativas provam que é uma decisão de gestão enfrentar os estigmas. A quebra do preconceito deve permear todas as ações do governo, seja no empoderamento feminino, no respeito às diversas religiões ou no acolhimento às populações marginalizadas por doenças.
Neste Natal, meu desejo é que a gente possa exercer a fraternidade na prática. Que possamos construir cidades onde ninguém tenha vergonha de pedir ajuda e onde o Estado esteja sempre de braços abertos para acolher, tratar e cuidar. Afinal, governar é, acima de tudo, um ato de amor ao próximo.
Você conhece algum projeto de saúde na sua cidade que faz a diferença na vida das pessoas? Me conta lá nas redes sociais, que você encontra no meu blog (https://manoelaperes.com.br). Vou adorar saber. Um beijo, um Feliz Natal e até a próxima coluna!
Manoela Peres é secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema, ex-prefeita de Saquarema e Mestre em Administração