Isa Colli é escritora e jornalista Divulgação
Isa Colli - Pela vida das mulheres: o combate diário que o Brasil ainda deve assumir
O Brasil caminha para o encerramento de mais um ano sob o impacto de episódios que escancaram a persistência da misoginia e a incapacidade institucional de proteger mulheres. A recente onda de violência não inaugura o debate, ela apenas confirma o que feministas e pesquisadoras apontam há décadas: vivemos uma crise contínua, estrutural e normalizada, que transforma mulheres em alvos e banaliza agressões como parte do cotidiano.
Casos como o atropelamento de uma jovem em São Paulo e os assassinatos de servidoras no Rio reacenderam discussões urgentes, não porque sejam exceções, mas justamente porque repetem um padrão cruel. Mulheres alertam, denunciam, buscam ajuda e, ainda assim, permanecem vulneráveis. A negligência não é um acidente do sistema. Ela é parte dele.
Os números mostram a dimensão desse fracasso coletivo. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o país registrou em 2025 um total de 1.492 feminicídios — a maior marca desde que o crime foi tipificado, em 2015. São quase quatro mulheres assassinadas por dia. É estatística, mas sobretudo é luto. Luto que se repete, se acumula e permanece sem respostas à altura.
A violência também é alimentada por discursos misóginos que ganham força nas redes sociais. O universo redpill, travestido de filosofia masculina, oferece a jovens desorientados uma narrativa que transforma frustração em hostilidade e autonomia feminina em ameaça. É uma pedagogia do ódio, que normaliza comportamentos abusivos e converte ressentimento em violência real.
A prisão — e imediata soltura — do influenciador Thiago Schutz, o “Calvo do Campari”, após agredir a namorada, tornou-se símbolo dessa permissividade. Mesmo quando a agressão é flagrante, a resposta institucional ainda falha em representar a gravidade do que está em jogo. Enquanto isso, seus conteúdos e os de outros redpillers continuam a circular como se fossem entretenimento, moldando imaginários e legitimando abusos.
No último domingo (7), as manifestações do movimento “Levante Mulheres Vivas”, realizadas em diversas capitais, mostraram que o país também reage. Milhares de mulheres ocuparam as ruas para denunciar a violência cotidiana e exigir ação efetiva das autoridades. A mobilização escancarou o que muitas já sabem: se o poder público hesita, a sociedade civil não pode se calar.
Por isso, é essencial reforçar que o enfrentamento à violência contra a mulher não pode ser de ocasião. É tarefa de todo dia. Exige cobrar políticas públicas robustas, responsabilização efetiva de agressores, atuação firme das plataformas digitais e investimento contínuo em educação para a igualdade. Isso porque a violência não começa no golpe fatal: ela nasce no comentário que desumaniza, no meme que ridiculariza ou no influenciador que lucra com o ódio.
Romper esse ciclo é responsabilidade coletiva e urgente.
Isa Colli é escritora e jornalista

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.