Paulo Rosenbaumdivulgação

O escandaloso dossiê com vícios de informação, manipulação e que expôs a fraude jornalística dentro da emissora estatal do Reino Unido explicitou um aspecto que transcende o papel das mídias. A renúncia do CEO da BBC, Tim Davie, e da diretora de jornalismo da empresa britânica, apontam para algo muito mais grave: sim, é muito mais do que um equivoco acidental, e é o jogo democrático que vêm sendo fraudado.
As grandes democracias podem estar vivendo sob a tutela de uma manipulação sistemática e ainda sub dimensionada. E enquanto isso não for corrigido aquilo que conhecemos por democracia representativa não deveria mais ser encarada como tão representativa assim. Pois não se trata apenas da qualidade e de acesso à informação, mas sim de um excesso caótico que induz insanáveis deformações no julgamento do público.
Se a informação oferecida está mutilada, ou super editada - o que dá no mesmo -, torna-se desinformação. E esta conduta vem sendo subsidiada pela corrupção sistêmica da conduta de muitas mídias. Esta mais do que na hora de rever no que consiste exatamente a missão dos jornais e dos noticiários.
Muito provavelmente, para além da noção senso comum representado pelo termo “desinformação” estamos diante do progressivo desmantelamento do conceito de verdade, e muitas vezes com o respaldo das academias e de intelectuais não tão orgânicos assim.. O mesmo relativismo saudável e dialógico que nos fez superar o limiar filosófico imposto pelo conservadorismo, e pelo positivismo lógico reducionista do século XIX, agora nos faz cair - parafraseando um conceito do epistemólogo Paul Feyrabend - na armadilha do “qualquer coisa serve”
Ou seja, o que já nos serviu para colocar em cheque o conceito de verdade absoluta, e dos dogmas da imortalidade científica das certezas, agora vem vendo instrumentalizado por forças obscurantistas. Como então classificar então notícias que insinuam a justificação para o terrorismo, racionalização do assassinato de desafetos politicos, distorção nas narrativas de guerras, e sabotagem das tentativas dialógicas? E toda estratégia tem sido conduzida através da criação de baias estanques de solilóquios controlados.
E é exatamente o oposto da atitude dialógica. As redes sociais poderiam desaparecer sem nenhum prejuízo para a civilização caso seu trabalho de criar nichos cada vez mais autorreferentes prossiga incólume.
O jornalismo precisa ser devolvido para o seu papel vital de trabalho analítico. Não é neutralidade, trata-se da sobriedade que a imparcialidade gera. Só assim o que vem sendo equivocadamente chamado de “polarização” pode sofrer uma inflexão favorável à volta de um convivo intelectualmente minimamente civilizado. Onde discordar não é odiar, dialogar não é persuadir, e refletir não é coagir.
Ora, nada menos dialógico do que a aspiração por uma linguagem hegemônica.
O predomínio e prevalência de determinadas pautas sobre outras já seria a prova contumaz de que os assuntos e temas abordados obedecem uma seletividade discutível. Evidentemente que tal obsessividade nada tem de fortuita. E quanto a todas as testeiras, figurando Israel como campeão solitário da maioria das iniquidades do mundo? O recente massacre de judeus na Austrália durante a festividade judaica de Chanuká e a epidemia de ataques antissemitas são o resultado final de uma incitação massiva ao ódio: uma decorrência lógica mais do que previsível.
O compromisso com a chapa branca nunca inspira confiança, é apenas um álibi crônico para encontrar as brechas que geram a impunidade do sistema.
Não é papel da imprensa ser porta-voz de Estados, cúmplice de causas, ou oferecer apoio a governos, sua missão é recuperar um papel único e insubstituível: ser o superego autocrítico da sociedade.
Essa seria a única atitude republicana aceitável.
Por Paulo Rosenbaum