Daniel MusseDivulgação
Uma pesquisa nacional da Associação dos Médicos Residentes mostrou que 48% dos residentes fazem uso de antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes. Outro levantamento, do Medscape National Physician Burnout Report (2023), aponta que 53% dos médicos relatam burnout, e a OMS já classificou a síndrome como risco ocupacional elevado entre profissionais de saúde. Esses dados não refletem fragilidade; refletem exaustão estrutural.
Ao mesmo tempo, o Brasil vive uma expansão sem precedentes no ensino médico. Já são mais de 370 faculdades de medicina, com quase o dobro de escolas abertas nos últimos dez anos. Isso aumenta o número de recém-formados entrando num funil competitivo demais para comportar todos no modelo tradicional de residência e empurra muitos para cursos de “especialização rápida”, que preocupam pela superficialidade. O temor é legítimo. Mas o fenômeno não nasce da irresponsabilidade dos jovens; nasce de um sistema que não comporta o volume que ele mesmo produz.
E há outro ponto negligenciado: o próprio modelo clássico de formação se baseia em exigências forjadas em outra época: noites em claro não remuneradas, plantões excessivos, assédio naturalizado como disciplina e uma lógica de sacrifício permanente. Com a tecnologia distribuindo conhecimento, a comunicação se tornando parte central do cuidado e pacientes mais informados, esse formato deixou de ser apenas rígido, passou a ser obsoleto e, muitas vezes, cruel.
Nada disso significa que a geração nova esteja certa em tudo ou que a antiga esteja errada. Significa apenas que, pela primeira vez, jovens médicos estão dizendo em voz alta o que muitos sempre sentiram e sofreram em silêncio: não vale a pena pagar com a própria saúde para exercer a profissão. E, ao contrário do que afirmam os críticos, isso não compromete a medicina. Humaniza.
A verdade é que ambas as gerações têm muito a ensinar. A tradição oferece profundidade técnica, casuística, rigor e disciplina. A nova onda traz atenção à saúde mental, consciência de limites, comunicação eficaz e disposição para questionar práticas que não cabem mais. O conflito só existe quando uma tenta invalidar a outra. Quando se somam, produzem uma medicina mais segura, mais humana e mais sustentável.
O que está em jogo não é nostalgia nem rebeldia. É a necessidade de atualizar um sistema que formava bons médicos às custas de vidas pessoais arruinadas; e que hoje encontra profissionais que simplesmente não aceitam mais essa barganha.
A medicina sempre foi considerada uma arte. E, como toda arte, ela muda de forma ao longo do tempo, sem perder sua essência, apenas ganhando novas maneiras de existir. Se a nova geração insiste em preservar a própria saúde enquanto cuida da dos outros, talvez, finalmente, isso seja um avanço - não um defeito.
Daniel Musse é oncologista clínico e membro titular da SBOC (Brasil), ASCO (Estados Unidos) e ESMO (Europa), principais sociedades internacionais de oncologia

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