Victor MeirellesDivulgação

Independentemente da data é sempre relevante falar sobre o assunto. Vamos percorrer o sentido da caminhada, numa chama ancestral acender a ideia, na qual o riscar do fósforo produz o encontro, ascende uma relação única, onde o atrito ilumina nossos passos. Cadê a nossa consciência negra? Antes mesmo de nos perdemos nessa busca, que possamos percorrer as estradas das memórias e histórias, de negras e negros que antes de nós por elas passaram.
Não vamos correr e por esse caminho vamos pisar bem no miudinho, de mansinho, observar o percurso e a ocasião, a direção faz todo o sentido. Preste atenção! Eu empresto um dos meus sapatos para que você possa sentir o que por essas ruas vividas senti e sinto. Sapatos, que na história, denotam e fazem lembrar de uma ideia de liberdade, humanidade, que às vezes, por vezes, aqui não passou, quem dirá pisou.
Quero apontar o que as práticas cotidianas de uma educação antirracista pode como potência, no chão da escola, transformar um contexto violento em um espaço, não escasso, de ensino e cuidado. Sou prova viva que dá para pisar nesse chão escolar e transformar o desfecho.
Crianças e jovens pretas precisam ser, ao longo da história, protagonistas de suas próprias trajetórias. Precisam se ver e ter a certeza do valor que elas têm nesse mundão.
Ter a ciência do racismo é compreender as relações racistas e preconceituosas engendradas no mecanismo educacional, entender seu efeito engrenagem no relógio social, produzindo e reproduzindo, segundo a segundo, desigualdades, injustiças, violências e mortes, marcando no transcorrer do tempo uma maioria minorizada, invisibilizada e silenciada, a viver perseguição, adoecimento, dor e sofrimento. Nesse estado latente da consciência não podemos deixar escapar dos braços e colo, toda a afetividade inerente ao ser humano.
Na direção de cuidador e educador, sigo com amor pelas trilhas de uma realidade brasileira que insiste em ser hegemônica, xenofóbica e racista, reproduzindo ignorâncias. As desigualdades históricas/coloniais ainda impregnam nossos corpos.
Consciência negra se encontra com ciência negra, construída no coletivo pela sociedade, no aquilombar, por meio da representatividade, do reconhecimento do povo negro e de seus feitos, em roda na gira, dando circularidade ao conhecimento produzido por pessoas pretas, compartilhando suas histórias e a cultura afro-brasileira, apresentando personalidades negras mundiais. Em casa e na escola, por meio da educação étnico-racial, antirracista, sim, para assim, romper o silenciamento e toda discriminação, traçando uma rota de orgulho que ser negro tem.
Que em nosso olhar possa vir a florescer amorosidade, equidade, respeito, solidariedade e outros valores e saberes que devem nos orientar todos os dias e não apenas em 20 de novembro.
Tenho orgulho em dizer: Sou Negro, sim!
Victor Meirelles é doutorando em psicossociologia pela UFRJ