Isa Colli é escritora e jornalista Divulgação

Neste fim de ano, período em que estatisticamente aumentam os índices de acidentes nas ruas e estradas, é imprescindível ampliar o olhar sobre os transportes de duas rodas. O que já deveria ser tratado como prioridade pelo poder público segue avançando, deixando um rastro de vítimas, sobrecarga no sistema de saúde e famílias marcadas pela dor.

É inegável que a motocicleta se consolidou como alternativa de mobilidade e fonte de renda para milhares de trabalhadores, especialmente jovens. Em um país onde o desemprego e a informalidade ainda são desafios estruturais, esse fenômeno não pode ser ignorado. A discussão sobre direitos trabalhistas, sobretudo no trabalho por aplicativos, é necessária e precisa ser enfrentada. O alerta aqui, no entanto, é outro, igualmente preocupante: o crescimento acelerado do uso de motos vem acompanhado de um aumento alarmante de acidentes, muitos deles fatais.

Os números da cidade do Rio de Janeiro são contundentes. Mais de 21 mil motociclistas foram atendidos em hospitais da rede municipal em 2025, um aumento de 60% em relação ao mesmo período do ano anterior. A média atual é de quase 80 motociclistas feridos por dia, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. A realidade carioca reflete um cenário nacional crítico.

Levantamento da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT), realizado em 100 hospitais públicos e privados, mostra que em mais de 70% dos casos envolvendo motociclistas, o tempo de internação ultrapassa sete dias. Essa longa permanência ocupa leitos e contribui para um dado ainda mais grave: metade dos cancelamentos de cirurgias eletivas no país ocorre porque os leitos estão ocupados por vítimas de acidentes de moto.

Entre janeiro e julho deste ano, o Sistema Único de Saúde internou quase 100 mil motociclistas em todo o Brasil. Em 2024, as internações custaram mais de R$ 257 milhões ao SUS. Não à toa, o programa Fantástico, da TV Globo, classificou os acidentes de moto como uma epidemia silenciosa.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que as mortes em acidentes com motocicletas aumentaram mais de 15 vezes em três décadas, passando de 792 óbitos em 1996 para 13.521 em 2023. Hoje, quase 40% das mortes no trânsito envolvem motos. Segundo a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), as vítimas são majoritariamente jovens entre 20 e 39 anos.

A preocupação não se limita às motos, nem aos adultos. Bicicletas e patinetes motorizados também acendem um sinal vermelho. O pediatra Daniel Becker alerta para o aumento brutal de acidentes com adolescentes, muitos com traumatismo craniano grave e fraturas múltiplas. Eles são vistos em ciclovias, até em calçadas, a 25, 30 km por hora, alguns sem equipamentos de segurança, arriscando as próprias vidas, a de idosos, a de mulheres com carrinhos de bebês… arriscando a vida de todo mundo.

Ignorar essa epidemia custa caro. Encará-la exige ação agora. E não há outro caminho: fiscalizar para salvar, educar para transformar.
Por Isa Colli, jornalista e escritora