O deslizar dos dedos pelas telas e o crescente uso da inteligência artificial têm provocado reflexões sobre o desenvolvimento humano e sobre a própria tessitura do processo criativo. Diante disso emerge uma indagação inevitável: o que acontece com uma geração que, em grande parte, pouco explora o movimento corporal em sua plenitude, restringindo-se ao universo dos equipamentos eletrônicos e às informações que fluem incessantemente pelas telas?
Outrora as crianças viviam experiências que não se reduziam à estaticidade de um corpo diante de uma tela: o correr livre pelas ruas ou quintais, o brincar de roda, o pular corda, o esconde-esconde, o reinventar do mundo a partir de uma caixa de papelão ou de uma bola feita de meia — tudo isso fazia parte de um cotidiano que nutria corpo, mente e imaginação. O movimento, em sua simplicidade, potencializava o desenvolvimento, alimentava a fantasia e firmava laços de pertencimento.
A infância, em sua essência criadora, tem sido silenciada pelo excesso de estímulos artificiais, impedindo que muitas crianças se permitam imaginar, sonhar e criar.
O brincar deve ser resguardado como ato de resistência e de vida, pois nele se entrelaçam dimensões psicomotoras, cognitivas, emocionais e sociais. Ao brincar, a criança não apenas se diverte: ela descobre seu corpo, reconhece o outro, testa hipóteses, inventa mundos, elabora emoções e se expressa no mundo com autenticidade.
Mas essa tarefa não cabe apenas à escola. As famílias também devem assumir a responsabilidade de promover o brincar na primeira infância. Cantigas entoadas no colo, rodas de brincadeiras que envolvem corpo e afeto, momentos de contação de histórias que abrem portais de imaginação — tudo isso fortalece vínculos e aproxima gerações, criando uma cultura mais lúdica, inclusiva e afetuosa.
A tecnologia faz parte da vida moderna e não pode ser descartada. Contudo, é preciso reconhecer que, sobretudo para bebês e crianças pequenas, a eliminação precoce dos estímulos tecnológicos é essencial para que possam mergulhar em experiências genuínas. Vivências na natureza, o contato com a terra, a descoberta das cores, dos sabores, dos sons, dos traços e dos movimentos tornam-se caminhos para o florescer integral da criança.
A urgência do brincar não é apenas pedagógica, mas existencial. É tecer a infância com fios de liberdade e imaginação; é permitir que cada criança reconheça a potência do seu corpo e a vastidão de sua criatividade e, sobretudo, assegurar que nenhuma geração se perca do direito mais humano e essencial: ser criança em plenitude.
Jonathan Aguiar é doutor em Educação. Entre os livros lançados está ‘Jogos e Brincadeiras Africanas’
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