Júlio FurtadoDivulgação

Como se fazer gostado? Talvez muitas pessoas não saibam, mas nossa vida é enormemente guiada por essa pergunta que ecoa em nosso subconsciente desde a infância. Quando se é criança, por sinal, ser obediente e comportar-se bem é critério tácito para sermos considerados bons meninos ou meninas. E, quando esse critério é falado e repetido por pessoas significativas para nós, ganha um sentido tão forte que nos faz tentar ser bons meninos ou meninas por toda a vida, em busca de um elogio ou um afago que faça com que nos sintamos amados.
Instituímos comportamentos padronizados em busca de amor. Muitos de nós acredita firmemente que se agradarmos os outros, receberemos de volta o afeto que tanto buscamos, então, inconscientemente, fazemos disso nossa principal tarefa: agradar para sermos amados. Esse padrão de acreditar que o agrado é o pai do afeto quase sempre acaba mal por duas principais razões: nem todas as pessoas respondem ao agrado com afeto e agradar sempre nos leva a um cansaço existencial que não é apenas de corpo é, também, de alma.
Importante ressaltar que o padrão de agrado pode ser biunívoco. Eu agrado o outro esperando que ele me ame e posso esperar que o outro me agrade como forma de demonstrar que me ama. Enquadram-se aí as pessoas que só consideram amigos aqueles que concordam com elas, as apoiam e elogiam tudo o que fazem. Saiu desse formato, passa imediatamente para o “outro lado”. O padrão de agrado é fruto do padrão da obediência implantado no “bom menino” que nunca decepciona e que muitos de nós deturpa e converte em extrema dificuldade de dizer não. Por isso é importante que a criança vivencie sua essência e seja ela mesma em suas escolhas e produções.
Os pais de antigamente sabiam bem mais do que os de hoje, quem é o verdadeiro pai do afeto. O nome dele é respeito. Não estamos aqui defendendo a criação tradicional rígida e desafetuosa que não dá espaço para a criança ser ela mesma através do direito de escolha. Estamos ratificando que a construção saudável de limites leva ao desenvolvimento do respeito que deve ser o verdadeiro “pai biológico” do amor.
Por isso, fica aqui uma dica “de milhões”: busquemos, em nossas relações, o afeto adulto, que é filho do respeito e não o afeto infantil, que é filho do agrado. Afinal, relações maduras são construídas entre pessoas inteiras e respeitosas e são bem mais leves de sustentar do que relações infantis, cansativas e superficiais.
Júlio Furtado é orientador educacional e escritor