Sou um modesto inventor de histórias. Gosto de, inclusive, ao observar as pessoas, imaginar os seus mundos.
Dia desses, estava em uma praça, passeando com os meus cachorros e ouvi uma senhora dizendo para uma outra senhora: "Acho melhor eu ir, já deu minha hora". As duas com os seus cabelos brancos, com os seus olhos de quem já chorou o tempo e já viu dias claros depois de chuvas fortes. Por que havia chegado a hora de ir? Quem a estava esperando?
O tom de voz parecia quase que uma necessidade de não magoar alguém. Quem seria esse alguém? A outra apenas aceitou meneando a cabeça. Como se já estivesse acostumada com o tempo de deixar ir.
Quando invento histórias, as minhas se misturam. E, vez em quando, me perco no real e no imaginado. Gosto muito do imaginado porque é filho do real. As plantas não brotam das nuvens. A minha terra firme é a memória que o tempo foi deixando de herança.
Tia Leila me deixou alguns bens de herança. O maior deles, a delicadeza de me contar histórias e de ler histórias para mim, desde o tempo que eu não tenho como me lembrar com detalhes, então, invento. O que não invento é o sentimento daquele tempo. Nem do tempo de hoje. Hoje, enquanto escrevo, enquanto penso nela.
Tia Leila não tinha o casamento em seus projetos de vida. Gostava da solteirice. Gostava de ser a irmã da minha mãe. Gostava de ser minha tia. Gostava de cuidar dos pais. Um dia, entretanto, morreu Ivete, amiga amada, que era casada com Antonio. Ivete sofreu tempos de um câncer doído. Foi diminuindo na cama. Foi se despedindo consciente da finitude e com uma fé imensa no tempo que vem depois.
Ivete, pouco antes de morrer, chamou minha tia e disse da viuvez premente do marido Antonio. Minha tia tentou o desfazimento dos argumentos. Jogou crenças de cura. Ivete não pegou. E fez o pedido: "Leila, eu estou indo, não quero que Antonio fique sozinho, você é solteira, amada pelos meus filhos, queria pedir que você se casasse com Antonio". Tia Leila disse nada. Achou o pedido despropositado. Casamentos não se arranjam assim.
Pensou, pensou e conversou com minha mãe. Conversa linda a das duas, "Será que a Ivete vai saber se casei ou não com ele?", "Claro que vai, do céu dá para ver de tudo", "Então, é melhor..." Meses depois da partida de Ivete, minha tia se casou com Antonio, a quem eu já chamava de tio, tão próximos que éramos.
Tio Antonio tinha uma fábrica de medalhas de santos. E gostava dos trabalhos manuais. Tinha ele por volta de 70 anos, talvez, quando se casou com tinha Leila, que devia ter mais de cinquenta. E foram felizes durante o tempo em que o tempo autorizou permanecerem.
Um dia, foi o dia de Tio Antonio viver a eternidade. E tia Leila ficou nos questionamentos de como se dá depois da morte. Quem é casado com quem? Eu ria dizendo ser impossível saber, mas que ruim não haveria de ser.
Pois bem, um dia Tia Leila disse ao marido que na varanda da casa não havia luz. O marido respondeu que havia luz. As lâmpadas é que estavam quebradas.
Tantos anos depois, penso nessa imagem tão filosófica. O que acontece quando as lâmpadas se quebram? Não há luz. Há luz. O problema não está na fonte que gera. O problema está no quebradiço do que se vê.
Eu era estudante de filosofia, naquela época, e fiquei dizendo ao Tio Antonio sobre a profundidade da sua explicação. Acho que ele gostou por gostar de mim, mas gastou pouco do seu pensamento pensando no que eu havia dito. E foi fabricar com as mãos alguma peça no cômodo em que gostava de estar.
Essa história não inventei. Lembro da varanda apagada e da varanda acesa. E lembro de lembrar sempre que todos nós teremos sempre uma fonte de luz dentro de nós, mesmo quando estamos quebrados.
Sou educador preocupado com tantas conclusões apressadas, sem pensamento e sem amor, sobre humanos que erram, sobre humanos cujas luzes não iluminam. Desistir do humano é deixar a varanda da humanidade sem a luminosidade que a torna aconchegante.
Sim. Somos seres do aconchego. Não somos sem o outro. Não nos desenvolvemos sem o outro.
Tia Leila já se foi há algum tempo. E ela construiu um punhado de mim. É assim com os encontros. Alguns são fugidios feixes de luz, como as senhoras e os seus cabelos brancos e as despedidas naquela praça. Outros fazem vida com a gente, conhecem dos nossos sonhos e das nossas quebraduras e permanecem o tempo de permanecer, mesmo depois que se vão.
Nada nessa vida é em vão. Quando as lâmpadas se quebram, o melhor não é gritar nem desacreditar, é consertar.Há um concerto tão harmonioso em mim, pelo menos hoje, pelo menos enquanto escrevo, de sons de vozes que me ensinaram a amar.
Sou um modesto inventor de história. Só não invento de desinventar a boniteza da luz, sua real existência, mesmo quando as lâmpadas se quebram