ANTÔNIO GERALDO DA SILVADIVULGAÇÃO

Nesta semana trabalhei intensamente e, apesar do cansaço, senti grande satisfação. Isso me fez pensar em como deve ser difícil viver dias inteiros em um trabalho que gera insatisfação. Aprendi em casa, com meus pais, que o trabalho é essencial. Cresci ouvindo: “Quem não vive para servir, não serve para viver”. Talvez por isso eu tenha seguido múltiplas ocupações, e posso dizer, com tranquilidade, que nenhuma delas me faz mal.
Na prática clínica, porém, tenho atendido cada vez mais pacientes que relatam o oposto: o trabalho como fonte de sofrimento, ansiedade e adoecimento. Essa contradição merece atenção. Se, por um lado, o trabalho pode oferecer propósito, rotina e senso de pertencimento, por outro, quando marcado por excesso, pressão constante, relações difíceis ou falta de reconhecimento, torna-se um fator importante de desgaste emocional.
É preciso compreender que não é o trabalho em si que adoece, mas a forma como ele é organizado e vivido. Ambientes onde não há escuta, metas são inalcançáveis ou o indivíduo não encontra sentido no que faz tendem a produzir sofrimento e, consequentemente, doenças. A falta de equilíbrio entre vida pessoal e profissional agrava esse cenário e pode levar ao esgotamento. Não por acaso, os transtornos mentais já estão entre as principais causas de afastamento do trabalho no Brasil.
Por outro lado, quando o trabalho é saudável, ele organiza a vida, fortalece vínculos e contribui para a construção da identidade. Sentir-se útil e reconhecido protege a saúde mental e amplia o bem-estar.
Hoje, mais do que nunca, é urgente defender os trabalhadores com informação e ação. Como psiquiatra, vejo diariamente a relação entre doenças ou transtornos mentais e ambientes de trabalho nocivos. Não há desenvolvimento que justifique a perda da dignidade humana. Não há lucro que compense uma cultura de adoecimento. Não há empresa verdadeiramente forte quando seus trabalhadores precisam se quebrar para mantê-la de pé.
Celebrar o trabalho é defender que ele continue sendo fonte de vida, pertencimento e realização, jamais instrumento de medo, exaustão e apagamento. Trabalhar faz bem. Mas não pode custar a própria saúde.
Antônio Geraldo da Silva é presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria