Edeusa é minha amiga. Digo isso para que não pairem dúvidas de que os meus comentários sobre ela não estão desprovidos de afeto.

Éramos três. Inseparáveis desde o Instituto em que nos preparávamos para nos tornarmos professoras. Judith morreu antes. Ficamos nós. Ela e eu. Eu enviuvei há dois anos. Não quero entrar nesse assunto hoje, mas os que me conhecem dizem que eu melhorei. Que estou mais arejada. Que falo com mais espontaneidade sobre assuntos vários. Que digo 'não' sem muitos pensares depois. Isso é um fato libertador. Sofrer por ter que dizer 'não' é se enjaular nas vontades do outro.

Sou uma mulher que tem dois salários. A pensão do meu marido e a minha aposentadoria. Não é nada exagerado, mas me oferece o que eu preciso para viver na vida o prazer. Viajo. Faço compras. Não tive filhos. Tenho Dalva, uma cachorrinha que me faz companhia e que parece conhecer as estações do meu humor.

Não é sobre mim que estou rabiscando pensamentos e atitudes, é sobre Edeusa.
Ambas somos religiosas. Desde os tempos do Instituto. Ela, há algum tempo, entretanto, deu de ser mais sabida do que os religiosos mais sabidos. E deu de ser mais julgadora que os julgadores que mais gostam de julgar. E deu de dizer aos outros o que salva e o que condena.

Conheço bem Edeusa. Ela arrumou um namorado há não muito. Aos outros, diz que a juventude se desenraizou dos valores e que vai sendo levada como em um vendaval de perversões e insanidades.

Gosto da palavra insanidade e acho insano os seus dizeres sem fim sobre os temas da moral. Também gosto da palavra moral. E do seu conceito. Do que mora dentro. Dentro de Edeusa mora a certeza de que o pecado é barulho que bate à porta. E que, por isso, é preciso se trancar.

Ouvindo esses dizeres dela para a sobrinha, que se cansou e se levantou nos deixando sozinhas, eu quis desconfiar de tantas certezas. "Você disse a ela que não pode ir para a cama com o namorado antes do casamento, mas você vai para a cama com o seu namorado... nem sei se é bem namorado".

Ela respondeu sem muito pensar. "Eu confesso antes".
"Como assim?"
"Quando me deito com Artur, no dia seguinte, confesso".
"Mas tem um erro nisso, porque você vai voltar a se deitar com o Artur e a confissão exige arrependimento".
"Mas eu sou casada".
"Você é viúva, Edeusa".
"Sim, mas na minha idade".
"Fico pensando no que o padre diz, você voltando toda semana lá e contando o mesmo pecado, "Me deitei com o Artur".
"Eu mudo de padre, oras. Acha que vou no mesmo?"

Eu ri. Eu ri e ela não entendeu.
"Por que você perturba tanto os outros, se você não acha nada de mais em namorar?".

Ela olhou com um olhar acusador e me acusou de sair com homens e não me confessar depois. Eu ri mais alto. E ela prosseguiu dizendo que eu vou à missa mesmo assim. E eu disse que continuaria indo. E que achava que o pecado era perturbar os outros com perturbações nossas.

Ela pediu que mudássemos de assunto e começou a falar mal do irmão que, segundo ela, é um pecador, porque trabalha em dia santo.

Como Edeusa é uma amiga antiga e nos divertimos juntas jogando cartas e indo ao cinema, embora ela considere alguns filmes indecorosos, prossigo cultivando a amizade e convivendo com as nossas diferenças. Seu namorado tem a metade da sua idade, mas ela prefere que os encontros sejam apenas em casa. Em casa dá para trancar a porta e, então, o pecado não entra.

Há outro detalhe, ela sempre condenou mulheres com homens mais jovens. Dizia que eram interesseiros, evidentemente.
Evidentemente, ela mudou de ideia, mas não vai dizer.

Um dos padres quis saber, segundo ela me disse, por que eles não se casam. Ela respondeu que ele era casado. "Ele é casado, Edeusa, como assim?". Ela deu de ombros e disse que sentia saudade da Judith. Que ela, sim, era uma mulher de fé, como se isso fosse me diminuir. Que ela usava coque e não ficava com os cabelos convidativos. E que os tecidos de seus longos vestidos era proteção de que eu deveria levar em conta.

Meneei a cabeça como se desacreditasse em tanta disparidade entre o dizer e o fazer. Enfim. Quando os discursos são cheios de acusação aos outros, o melhor é desconfiar.