O retorno às salas de aula após o período mais crítico da pandemia de COVID-19 não foi apenas um reencontro; foi um despertar para uma realidade que as paredes das nossas escolas ainda não estavam totalmente preparadas para abraçar. Como gestora, acompanhei de perto o relato de professores que notavam comportamentos atípicos: a desatenção frequente, a dificuldade de interação e uma angústia latente. Do outro lado, mães exaustas buscavam socorro, relatando que a vida — profissional, emocional e financeira — estava completamente mobilizada para o cuidado de filhos neurodivergentes, muitas vezes sem diagnóstico ou qualquer suporte.
Em Saquarema, decidimos que não fecharíamos os olhos para essa "bola de neve". Ao mapearmos nossa rede, o susto se transformou em ação: das quase 20 mil crianças matriculadas, mais de 3 mil possuíam laudos de Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH e outras neurodivergências. O impacto era profundo. Na Secretaria da Mulher, o diagnóstico era claro: a falta de assistência aos filhos gerava a exclusão social das mães. Sem centros de tratamento, fonoaudiologia ou terapias multidisciplinares, a cidade precisava de uma mudança estrutural imediata.
Esse número expressivo de laudos e diagnósticos só foi possível graças a criação da Subsecretaria de Inclusão dentro da Secretaria de Educação. Entendemos que a Educação inclusiva não se faz apenas com matrículas, mas com suporte real. Lançamos o PAED e realizamos concurso para mediadores, figuras que considero o coração desse processo. O mediador garante a integridade física e, acima de tudo, a participação efetiva do aluno nas atividades pedagógicas.
Fomos além da presença física. Firmamos uma parceria estratégica com especialistas de São Paulo para adaptar conteúdos e avaliações para a metodologia CDRA nas nossas escolas. Afinal, como exigir o mesmo formato de prova de quem processa o mundo de maneira distinta?
A inclusão de verdade também foi aplicada na EPES (Escola de Educação Profissional de Saquarema). Hoje, quase 30% dos nossos alunos ali são laudados, unindo casos de autismo e altas habilidades. O resultado? Empresas gigantes, como a Oracle, ficaram impressionadas ao ver jovens de 12 a 14 anos desenvolvendo soluções tecnológicas de alto nível.
A inovação também veio do design ambiental. Inspirados na sala multissensorial de regulação do Aeroporto Santos Dumont, implementamos esse conceito na construção da Escola Gustavo Campos da Silveira. Foi o embrião do nosso maior orgulho: a Casa do Autista, que será inaugurada ainda este ano. Mais que um prédio, será um centro de acolhimento para crianças não verbais, superdotados e, fundamentalmente, para os pais, oferecendo escuta qualificada e suporte médico.
Não estamos sozinhos nessa jornada. Outras cidades também mostram que a Política pública eficiente é o caminho. Em Jundiaí (SP), o programa "Escola Inovadora" investe pesado em ambientes que respeitam a neurodiversidade, integrando tecnologia e natureza. Em Curitiba, o CMAE (Centro Municipal de Atendimento Especializado) é referência há anos no suporte multidisciplinar. Essas experiências confirmam: quando o Estado assume sua responsabilidade, o diagnóstico deixa de ser um peso para se tornar uma descoberta de potenciais. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que uma em cada 100 crianças no mundo possui autismo. No Brasil, embora os números oficiais ainda estejam sendo refinados pelo Censo, estima-se que milhões de famílias vivam essa realidade. Garantir o Direito à educação e o Desenvolvimento infantil pleno não é um favor, é um dever constitucional que exige sensibilidade e orçamento.
A inclusão não pode ser apenas uma palavra bonita em um plano de governo; ela precisa de salas multissensoriais, de mediadores qualificados e de um olhar que enxergue o talento onde o mundo insiste em ver limitação. Meu compromisso é tamanho que dediquei minha dissertação do mestrado para estudar esse assunto levar essa experiência de Saquarema para todo o estado e para o país, garantindo que nenhuma mãe se sinta exausta por lutar sozinha e que nenhuma criança seja deixada para trás.
Acredito em uma sociedade onde a diferença não seja um obstáculo, mas a engrenagem que nos impulsiona a construir um futuro mais humano e verdadeiramente para todos.
Manoela Peres é ex-prefeita e ex-Secretária de Governança e Sustentabilidade de Saquarema
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