Rafael Baptista de MeloDivulgação
Enquanto adultos discutem se completar o álbum vale a pena, as crianças vivem uma experiência muito mais significativa do que preencher páginas. Na clínica, costumo orientar os pais a olhar para situações do cotidiano como oportunidades de desenvolvimento. O álbum é um bom exemplo, porque mistura expectativa, pertencimento, frustração, conquista e interação social.
Esse aprendizado aparece nos pequenos detalhes. Ao procurar números faltantes, criar estratégias, conhecer bandeiras e países ou no simples colar. Ao fazer tudo isso, a criança exercita raciocínio lógico, atenção, coordenação motora fina e organização. Mas os aprendizados mais importantes estão nas interações ao redor do álbum.
Quando uma criança negocia uma troca no intervalo, tenta explicar por que determinada figurinha “vale mais”, espera pela próxima oportunidade ou descobre que nem sempre a figurinha desejada vem no pacote, ela treina algo que vai além do álbum: tolerância à frustração, paciência, flexibilidade e convivência social.
Por isso, o problema não costuma estar no álbum, mas na forma como os adultos participam da experiência. Quando os pais criam planilhas, compram muitas figurinhas ou fazem as trocas pela criança, estão tentando ajudar. Mas, sem perceber, podem retirar justamente as partes mais ricas do processo.
Porque o aprendizado não está apenas em completar o álbum. Está em abrir um pacote e receber repetidas. Está em fazer uma troca que depois não parece tão vantajosa. Está em perder no “bafo”, colar torto e lidar com imperfeições. Mas também está em encontrar aquela figurinha tão esperada. É sobre frustração, mas também sobre expectativa, surpresa e conquista.
Existe uma diferença importante entre fazer pela criança e fazer com a criança. Quando os adultos assumem todo o controle, oportunidades de autonomia se perdem. Ao tentar proteger os filhos de qualquer desconforto, podemos impedir que eles desenvolvam recursos para a vida real.
Na prática clínica, isso aparece de forma concreta. Algumas crianças chegam com figurinhas organizadas. Outras trazem tudo amassado no bolso. Em ambos os casos, há uma oportunidade: ensinar organização, valorizar o cuidado ou conversar sobre espera, perda e conquista. Na clínica, inclusive, promovemos trocas com uma regra simples: adultos não negociam pelas crianças.
A pergunta que fica é: por que esperar quatro anos para colecionar experiências transformadoras? Entre Copas e figurinhas, podemos promover o desenvolvimento dos nossos filhos. Talvez a criança não se lembre de quantas figurinhas completou, mas pode se lembrar de quem acolheu suas frustrações, celebrou suas conquistas e viveu o processo com ela.

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