Paulo Rosenbaumdivulgação

O que move as pessoas a sentar e redigir posts, artigos ou criar mensagens que constrangem, insultam, tripudiam e insuflam o ódio, ou produzem mal-estar e indignação nos leitores?
Em artigo recente neste mesmo prestigioso O DIA evoquei várias pesquisas que abordavam o tema. Uma delas rastreia aquilo que foi classificado como a fisiologia do sentimento de ódio. O ódio é um sentimento com características muito peculiares. Apresenta padrões distintos de outros sentimentos como medo, ameaça e perigo. O nome escolhido para esmiuçar esse mecanismo foi descrito como o “circuito do ódio”.
“No tal circuito, esse sentimento invade o sistema límbico, particularmente verificáveis nas estruturas do córtex e no subórrtex, especialmente no putamen e na insula, antes sequer que o sujeito possa ter qualquer controle sobre as próprias ações e palavras. A percepção de ameaça – imaginária ou real, abstrata ou concreta -- estimula uma reatividade que tentando prever as ações alheias e antecipando um eventual confronto. O ódio se antecipa a tudo, é, portanto, um dos sentimentos mais primitivos.”
O mecanismo pelo qual a raiva pode ser disseminada envolve tanto aspectos comunicacionais como informes repetitivos. O excesso de denúncias sem um critério de verificação de como se dá o impacto gera uma espécie de cumplicidade passiva das massas às quais, muitas vezes, não desejam se opor abertamente aquele que parece ser o sentimento dominante nas maiorias.
Evidentemente trata-se de um ardil induzido por propaganda e desinformação, pois, segundo as pesquisas, a maioria das sociedades não é naturalmente racistas. Porém a pressão social e a simulação por parte de parte da mass media, associada a impunidade permissiva que o anonimato proporciona nas redes sociais fazem parecer que tais pactos e consensos não apenas existem, mas vigoram hegemônicos. Isso facilita a adesão ao ódio, que pode assim, propagar-se em progressão geométrica ao modo de peste emocional.
Isso está sendo levado em consideração na formação (ou seria formatação?) dos adultos jovens que entram no circuito universitário? Pela amostragem recente, não. Há, antes, uma formação/formatação que precipuamente baseia-se na ideologia do núcleo duro do corpo docente, o qual renega aos discentes a possibilidade de formação crítica necessária para ousar pensar. Os malefícios para a criatividade, independência e autonomia dos estudantes são enormes, talvez irreparáveis.
E ousar pensar significa a aquisição dos meios e da confiança intelectual necessários para desafiar o mundo. Sem essa via autocritica, a investigação da realidade fracassa. Sem o respeito a essa prerrogativa as pesquisas costumam estampar as feições do orientador, jamais do orientando.
E assim recria-se um circuito perverso.
Paulo Rosenbaum é escritor e médico