Thereza LoureiroDivulgação

Historicamente, o câncer de cólon e reto era visto como uma doença da maturidade, algo para se preocupar apenas após os 50 ou 60 anos. No entanto, essa percepção está sendo desafiada por uma nova realidade epidemiológica. Dados da revista The Lancet Oncology e do Painel Oncologia Brasil, do Ministério da Saúde, mostram que a incidência desse tumor e a mortalidade que ele causa estão crescendo de forma acelerada entre adultos de 25 a 49 anos. Para o triênio de 2026 a 2028, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 53.810 novos casos anuais da doença.
No Brasil, observamos um deslocamento da idade na incidência desse tumor, que já figura como o terceiro mais comum também entre os jovens. Nos Estados Unidos, a American Cancer Society aponta essa neoplasia como a principal causa de morte por câncer em homens mais novos.
Mas o que está levando a população nessa faixa etária, teoricamente no auge de sua forma física, a enfrentar diagnósticos graves e, muitas vezes, fatais? Não há uma causa única, mas, sim, uma combinação de fatores: a exposição precoce a riscos ambientais e dietéticos moldou o organismo das gerações atuais de forma diferente da de seus pais. Um dos argumentos mais contundentes vem de um estudo recente liderado por pesquisadores da USP e da Fiocruz, publicado no American Journal of Preventive Medicine.
A pesquisa revela uma conexão direta e perigosa: a cada 10% de aumento na ingestão de alimentos ultraprocessados, o risco de morte prematura sobe 3%. Esse dado ajuda a explicar por que o câncer colorretal tem aparecido cada vez mais cedo: esses alimentos não apenas contribuem para a obesidade, mas atacam diretamente a saúde do sistema digestivo.
O impacto da devastação da microbiota e do diagnóstico tardio
A ingestão excessiva de embutidos, refrigerantes e “comidas” prontas para consumo desde a infância altera as bactérias intestinais. A substituição da microbiota saudável por bactérias prejudiciais gera desequilíbrio e perda da capacidade de proteção, causando alterações na permeabilidade intestinal. O resultado: toxinas conseguem penetrar nas camadas do órgão, favorecendo inflamações crônicas que facilitam o surgimento de tumores.
Outro grande problema é negligenciar sintomas como sangue nas fezes ou dor abdominal, confundindo-os com questões menores. A consequência disso é um diagnóstico em estágio avançado, quando as chances de cura são drasticamente reduzidas.
Embora os hábitos de vida tenham um peso enorme, cerca de 10% dos casos em jovens possuem uma base genética hereditária – é aqui que a medicina de precisão se torna a principal ferramenta para salvar vidas.
Identificar precocemente variantes genéticas por meio de exames de predisposição permite que o jovem adulto saiba se possui um risco biológico elevado antes mesmo de qualquer sintoma aparecer. Se houver predisposição, o monitoramento por colonoscopia deve começar muito antes do que as diretrizes gerais sugerem: atualmente, a partir dos 45 anos.
A morte de jovens por câncer colorretal é, em grande parte, uma tragédia evitável. Isso requer medidas regulatórias e fiscais para facilitar escolhas saudáveis, mas também exige uma mudança de postura individual. Entender que o corpo dá sinais e que a ciência hoje oferece tecnologia genômica para prevenir é o primeiro passo. A saúde intestinal não é um tema para os millenials pensarem no futuro, mas, sim, uma urgência do presente.

Referências:
Colorectal cancer incidence trends in younger versus older adults: an analysis of population-based cancer registry dat – The Lancet Oncology: https://www.thelancet.com/journals/lanonc/article/PIIS1470-2045(24)00600-4/fulltext
Observatório de Saúde Pública: https://observatoriosaudepublica.com.br/tema/cancer-colorretal
Instituto Nacional do Câncer (INCA) – Ministério da Saúde: https://ninho.inca.gov.br/jspui/bitstream/123456789/17914/1/Estima2026_completo%20%281%29.pdf
Premature Mortality Attributable to Ultraprocessed Food Consumption in 8 Countries: https://www.ajpmonline.org/article/S0749-3797(25)00072-8/abstract
Por Thereza Loureiro, oncogeneticista da Dasa Genômica e consultora do laboratório Sérgio Franco