André Esteves é diretor executivo do Instituto Onda Azul Foto: Divulgação

Quando ouvimos a palavra reflorestamento, é comum imaginar apenas árvores sendo plantadas em uma área degradada. Mas, para mim, reflorestar significa algo muito maior. Reflorestar é plantar água. É restaurar ciclos naturais que sustentam a vida, proteger nascentes, recuperar a capacidade do solo de absorver a chuva, regular a temperatura das cidades e fortalecer a relação entre as pessoas e os territórios que habitam.
Neste Dia Mundial do Meio Ambiente, acredito que precisamos refletir sobre uma questão essencial: qual é a relação que temos construído com os ambientes dos quais fazemos parte? Muitas vezes, nos acostumamos a enxergar a natureza como algo distante, localizada em florestas, montanhas ou áreas de preservação. Mas a verdade é que ela está presente em cada rua arborizada, em cada rio que atravessa uma cidade, em cada manguezal que protege a costa e em cada gota d’água que chega às nossas casas.
Costumo dizer que vivemos em um planeta azul, mas nem sempre compreendemos a profundidade desse significado. A água conecta pessoas, paisagens, ecossistemas e culturas. Ela atravessa fronteiras, molda territórios e sustenta economias. Ainda assim, seguimos tratando esse recurso como algo inesgotável. As enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e demais eventos climáticos extremos que testemunhamos cada vez mais frequentemente são sinais de que precisamos reconstruir nossa relação com a natureza e reconhecer que não existe futuro possível sem equilíbrio ambiental.
É nesse contexto que reflorestar ganha uma dimensão ainda mais ampla. Não se trata apenas de recuperar áreas verdes, mas de restaurar conexões. Conexões entre cidade e natureza. Entre desenvolvimento e conservação. Entre as necessidades do presente e as responsabilidades que temos com as próximas gerações.
Nestes 20 anos de atuação do Instituto Onda Azul, essa compreensão tem orientado nosso trabalho. Aprendemos que os desafios ambientais não podem ser enfrentados de forma isolada e que as transformações mais duradouras acontecem quando conseguimos aproximar pessoas, territórios e conhecimento.
O projeto Cidades Verdes, por exemplo, nasce da convicção de que as cidades precisam ser protagonistas da agenda da sustentabilidade urbana. Afinal, é nelas que se concentram grande parte dos desafios ambientais contemporâneos, mas também inúmeras oportunidades de inovação, participação social e construção de soluções. Pensar em uma cidade mais verde não significa apenas plantar árvores. Significa promover qualidade de vida, ampliar áreas de convivência, fortalecer o sentimento de pertencimento e criar espaços urbanos capazes de responder aos desafios de um mundo em transformação.
Da mesma forma, o projeto SustentAção reforça diariamente uma lição valiosa: não existe preservação ambiental sem educação e engajamento comunitário. Ao aproximar jovens, escolas e moradores das discussões sobre sustentabilidade, percebemos que o cuidado com o meio ambiente deixa de ser um conceito abstrato e passa a fazer parte das escolhas cotidianas. É quando entendemos que proteger um rio, cuidar de uma praça ou reduzir a geração de resíduos também são formas de construir futuros mais justos.
Ao longo dessa trajetória, aprendemos que as parcerias são uma das maiores riquezas que podemos cultivar. Quando organizações da sociedade civil, empresas, universidades, poder público e comunidades se encontram em torno de objetivos comuns, surgem novas possibilidades de transformação. São essas trocas que ampliam impactos, fortalecem territórios e ajudam a construir respostas mais justas para os desafios climáticos e ambientais que enfrentamos.
Por isso, sigo acreditando na força das boas ondas. Ondas de conhecimento, de colaboração, de cuidado e de esperança. Não uma esperança passiva, mas aquela que, como nos ensinou Paulo Freire, nos convida à "esperançar": agir, construir e transformar a realidade coletivamente, mesmo diante dos desafios. Uma esperança que se traduz em participação, compromisso e ação.
E é justamente nessa direção que seguimos caminhando. Como um pequeno spoiler do que está por vir, o Programa de Recuperação Ambiental da Mata Atlântica do Rio de Janeiro (PRAMA RJ) realizará em breve uma importante ação de reflorestamento em Rio Bonito. Mais do que plantar mudas, estaremos contribuindo para recuperar conexões entre pessoas e natureza, fortalecer a segurança hídrica dos territórios e lembrar que cada árvore plantada carrega consigo a possibilidade de um futuro melhor.
Porque reflorestar é plantar água. Plantar água é cultivar vida. E quando cultivamos vida, propagamos ondas de transformação que seguem encontrando novas margens, novos territórios e novas possibilidades de futuro. Afinal, as melhores ondas são aquelas que continuam se espalhando depois que passam por nós.
André Esteves é diretor executivo do Instituto Onda Azul