O dia 24 de junho sempre foi aguardado como um dia de luz. Dizem que o tal solstício de verão, nos países frios, era celebrado em festas de alegria por ter dias mais longos e noites mais curtas. Dizem que há lugares em que o sol nunca se põe. Fico pensando no sol no coração da gente.
Era um coração sem sol o meu naquele 24 de junho. Mesmo sendo dia de São João. O meu amor, o meu prometido amor de toda uma vida, havia desprometido tudo e partido. E encontrado outro porto para ancorar seus sentimentos.
A cidade já havia acordado quando fui caminhando até a Igreja. A primeira missa já estava terminando e algumas crianças ficaram para conversar com o padre. Eu também queria a conversa. Ou não. Iria falar as mesmas coisas? Iria perguntar quando iria passar?
Passei aquele tempo ouvindo. Achei as explicações bonitas. Maria foi visitar sua prima, Isabel, que estava grávida de João, o santo do dia. No encontro das duas mulheres, o cântico do Magnificat: "A minha alma engrandece o Senhor". E o restante. E a parte em que diz: "A sua misericórdia se estende de geração em geração".
E eu? Precisando de misericórdia. "Miser" vem de miséria, de sofrimento, de falta. "Cordis" é corda; não, é coração. É "cor". Que é também de coragem. Eu queria a coragem de pular a fogueira e deixar do lado que já ficou o que ficou.
E a criança quer saber do padre o porquê da fogueira na festa de São João. O padre explica as simplicidades. Quando Maria se despede da prima Isabel, ouve dela que, quando nascesse o filho, ela faria acender uma fogueira. E as chamas subiriam aos céus e, ao longe, Maria saberia.
Será que Maria, a mãe das dores, sabe da minha dor? Eu queria que soubesse. Explicou, ainda, o padre da vida de João. Da sua humildade. Da voz que clama no deserto.
Eu quis dizer ao padre que o meu coração era um deserto. Achei desnecessário. O padre foi dizendo dos desertos do mundo. Dos egoísmos que causam tanta dor. Da miséria. Da fome de comidas e de significados. E de João, o primo de Jesus, preparando um mundo novo.
Chorei um pouco. Não sei se pelas desgraças dos outros ou da minha. O fogo podia queimar as memórias do tempo com ele, não podia? Eu poderia comer um pé de moleque e sorrir o doce do amendoim. Ou da paçoca. Ou da pamonha. E deixar de me sentir assim.
Depois de as crianças irem embora, falei com o padre. Mais chorei do que falei. Ele ouviu. Autorizou o meu choro e até chorou junto. Achei bonito. Fiquei pensando se ele também já teve que se desapaixonar. Dizem que o Criador nos deixa sentir dor para sentirmos a dor do outro. E para sermos mãos que aliviam. E ouvidos que ouvem.
O padre me disse que estava preocupado com a falta de luz da cidade. Não queria que nada estragasse a festa. O povo simples preparava tudo com o coração. Pensei na simplicidade de Maria, a mãe do Filho de Deus. No seu silêncio. Na sua sabedoria.
Pensei naquele tempo. Pensei no tempo. No tempo aliviador de tudo. Pedi a João uma luz. Uma luz iluminadora. Eu queria dançar uma outra vida. Eu sabia que o sofrer de amor era parte da vida. E não era a primeira vez que eu sofria. E talvez fosse sofrer outras vezes. Eu pedi uma luz que não deixasse sombras para o desistir da vida.
O tempo da dor da paixão é quase uma ausência de qualquer outro tempo. O pensamento é todo da dor. Do que poderia ter sido feito. Do que faltou. Do que desaguou no fim.
No fim, a luz não faltou. A festa foi linda e eu até reaprendi o sorriso, pelo menos naquela noite, na noite de São João. A alegria das crianças dançando quadrilha cirandou sentimentos bonitos em mim. Já fui criança. Já chorei saudades. Já sorri encontros. Já experimentei a pipoca saborosa e os piruás. Os milhos que se recusam a estourar.
Recusei a estourar mais de uma vez. Com medo. E quando cedi, saboreei. O sabor da vida está em não se trancar, mesmo em dias trancados. O deserto pode ter sementes. O inverno pode estar terminando. E o sol pode trazer um novo amor. Dizem que o santo que traz amor é Antonio. A festa dele foi no dia 13. E ainda tem Pedro, nesse mês tão bonito. O que tem as chaves. As chaves que abrem o paraíso. O que vem depois e o que vem agora, de dentro.
Quando penso nesse sagrado, destranco as minhas prisões e danço, também. Perto da fogueira. Com o seu aquecer. Eu vou esquecer. Ou vou lembrar de um outro jeito. De um jeito que não me roube a alegria, a alegria bonita de uma festa de São João.