Fernando MoraesDivulgação
Da memória que ama, ainda ouço com nitidez suas palavras, desde o "bença, vó" até o seu dizer "Deus te abençoe e te guarde, meu filho". Isso vai além da espiritualidade; é um refrigério no coração em tempos de adversidade que me atravessa por inteiro. Os filósofos estoicos tinham em comum a busca por uma vida livre de chateações e perturbações alheias, convidando-nos a um esvaziamento de tudo o que sobrecarrega o espírito. Esse estoicismo aprendi desde a minha infância com a avó, o que hoje, para mim — filósofo profissional e estudioso das teorias do pensamento humano —, soa sempre como um déjà vu. Sua simplicidade era justamente a sua sofisticação. Mal dominava as palavras, pronunciando-as com um forte sotaque caipira, e quando, na brincadeira, nos atrevíamos a corrigi-la, ela declarava: “Me adescurpa aí, senhor sabichão”, e sorria com a singularidade de alguém que verdadeiramente sabia o que era viver.
Quanta saudade da vó! É na memória que ama que a encontro todos os dias. Não importa o que eu esteja fazendo ou vivenciando, ela está sempre presente. Como no dia em que fui palestrar para um grupo de executivos: por um pequeno atraso na programação do evento, fui convidado a aguardar na sala enquanto garçons elegantemente trajados serviam canapés e iguarias que só por oração e por revelação divina eu saberia do que se tratava. Com o meu paladar simples, acabei comendo algo que, só de tocar a boca, já não me caiu bem. Sem titubear, esquecendo o protocolo de etiqueta e quase de forma inconsciente, dei três beijinhos, fiz o sinal da cruz e lancei o pedaço mordido no lixo abençoado ao meu lado.
Percebi que uma senhora me observou com atenção, olhando-me como se já definisse um diagnóstico psiquiátrico. Logo após a minha palestra, ela me procurou dizendo: “Eu sei o que você fez, conheço esses gestos e me alegrei em ver”. E, ao mesmo tempo, falamos: “A vó ensinou: comeu e não gostou, e não tem para quem dar, pede perdão para Deus, faz o sinal da cruz, dá três beijinhos e joga fora”.
A memória que ama cria conexão de afetos; é sempre imperecível.

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