Isa Colli, jornalista e escritoraAcervo pessoal
À primeira vista, são histórias distintas, protagonizadas por pessoas de idades e contextos diferentes. Revelam, no entanto, o mesmo fenômeno: o momento em que alguém deixa de enxergar o outro como ser humano.
Esse talvez seja um dos traços mais preocupantes do nosso tempo. Não a violência em si, que sempre existiu, mas a rapidez com que, para alguns, ela parece ocupar o lugar da palavra, da razão e do limite.
Vivemos em uma época marcada por tensões permanentes. Trânsito, redes sociais, filas, condomínios, trabalho… Pequenos atritos fazem parte da vida em sociedade. O que parece ter mudado é a maneira como parte das pessoas reage a eles. O risco surge quando a divergência deixa de ser administrada e passa a justificar a hostilidade.
Para alguns, o outro deixa de ser alguém com direitos, sentimentos e fragilidades. Torna-se apenas um obstáculo a ser removido.
E, quando isso acontece, as vítimas costumam ser justamente as mais vulneráveis: uma criança, um idoso, uma pessoa com deficiência, uma mulher… Pessoas que, muitas vezes, têm menos condições de reagir ou de se defender.
As imagens que circularam nesta semana chocaram o país porque foram registradas por câmeras. Mas quantas agressões continuam invisíveis? Quantas humilhações acontecem atrás das portas de casa, dentro dos elevadores, nos corredores dos condomínios, nas escolas, nos hospitais e nas ruas? Quantas pessoas convivem diariamente com o medo sem jamais aparecer em um vídeo de poucos segundos?
Talvez estejamos diante de uma epidemia silenciosa de intolerância. Episódios como esses sugerem que, para uma parcela da sociedade, tornou-se cada vez mais difícil conviver com o diferente, lidar com a espera, aceitar a frustração ou reconhecer limites.
Há um aspecto que chama atenção: nenhum desses episódios nasceu de uma ameaça real à vida. Foram desencadeados por impulsos descontrolados, egos inflamados e pela incapacidade de aceitar um limite ou um simples “não”. Em segundos, a vida do outro passou a valer menos do que a própria raiva.
É complicado viver em um mundo onde violência ocupa o lugar do diálogo. Ela não atinge apenas quem sofre a agressão. Também intimida quem presencia e espalha o medo.
A Justiça seguirá seu curso, como deve ser, mas há um julgamento que cabe a todos nós. Cada ato de violência contra uma criança, um idoso ou qualquer pessoa em condição de maior vulnerabilidade nos obriga a olhar para além do crime e perguntar que valores estamos cultivando como sociedade.
No fim, resta uma reflexão que não pode ser ignorada: que caminhos estamos escolhendo para resolver nossos conflitos?

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