No deserto, encontrei pensamentos e encontrei pessoas. E o sol mais forte. E a natureza mais silenciosa. A natureza mais silenciosa é um convite para cavar a terra boa que vive dentro.
Os tempos em que andava a pé pelos raios de sol faziam andar o pensamento. E uma lembrança triste de um encontro sobre filhos desencontrados. Antes do deserto, eu estava com educadores cavucando as nossas mentes para abrirmos caminhos outros no educar que ajudem os filhos a não desistir. Encontrarmos razões para permanecermos em pé. E caminhantes. Em desertos ou em paragens menos áridas.
Histórias dos que desistiram por terem uma dor e não conseguirem encontrar nome para a própria dor. Nem colo. Nem abraço. Nem atenção. Desatentos, muitos pais exigem o que não se pode exigir. Perfeição não é semântica que se aplique aos humanos. Falam esses pais dos sucessos que não tiveram e querem ver os filhos nos pódios que inventaram. É sempre a busca do primeiro lugar em uma corrida sem razão.
Depois das conversas no tal encontro, do relembrar do que aumenta e do que diminui a potência do viver, dos espaços de aprendizagens que só ensinam quando banhados de humanidade, fui ao deserto, uns dias de descanso.
E, no deserto, encontrei uma família. A mãe, o pai, os dois filhos adolescentes. A mãe, amiga da gentileza, vendo que eu via a paisagem silenciosa, ofereceu para tirar uma foto. Aceitei. Gosto das fotografias. E das pausas para as fotografias. E do olhar de olharmos a vida sem pressa. Falamos os nossos nomes. Nos apresentamos sem qualquer interesse a não ser o do encontro. E vieram os filhos. E o marido. E as conversas.
Conversamos sobre os desertos do mundo. Disse eu da preocupação da educação que não educa. Em mim, ainda estavam os dias em que pensávamos o que fazer para melhorar currículos, para formar professores, para envolver família, para recriar a alegria na escola, no mundo.
O filho mais velho brincou sobre a diferença dos pais. O pai disse da diferença de toda gente. E é assim que é. O ser humano é irrepetível. Os filhos também diferentes. O afeto entre eles era bonito de ver, era ensinador de que as relações preparam para a vida. A vida é, também, deserto. É preciso ter água dentro para quando as fontes de fora parecerem preguiçosas.
Entre tantos dizeres, contaram que aos domingos a família assiste a um filme. Juntos. E que conversam sobre o filme. E que autorizam as perguntas sobre os assuntos tantos que incomodam. Cena bonita. O filme. Os estímulos dos temas. As conversas.
O estar junto é sagrado, ouvi da mãe que, depois de algum passeio pelo deserto, queria saber dos filhos a sensação. O que foi bom. O que cansou. O que ficou de aprendizagem. Prestei atenção à educação com que pedem aos outros coisas que precisam e à educação com que agradecem. O primeiro caminhar do existir é em casa. O cérebro em formação vai recebendo de fora impressões. Vai se impressionando com a vida. O primeiro caminhar é quase que eco de vozes que chegam. As vozes dos pais e os seus fazeres vão criando alicerces de uma construção que não para até voltarmos nus para a terra. Viemos da terra. Nus. Já disse.
E viemos da terra para ser, na terra, amor. O filho mais novo disse de um episódio de estranhamento com um outro, em uma outra viagem. E disse: "Minha mãe vira um gigante para nos defender", e logo completou: "Meu pai, também". A sensação de sermos amados, a sensação de que alguém se importa com quem somos faz toda a diferença para o que somos e o que seremos na vida. O filho mais velho explicou por que não têm celulares, porque não desperdiçam a vida gastando um terço do dia diante das telas. Haverá o momento certo. Com equilíbrio.
O cérebro dos nossos filhos têm bilhões de neurônios e trilhões de conexões ou sinapses. O que são quando chegam é potência, apenas. Dependem do meio. Dependem dos cuidados. Dependem das aprendizagens.
No encontro com os educadores, falávamos sobre a redescoberta do brincar, falávamos do hormônio do amor que cresce quando nos abraçamos, quando nos encontramos, quando nos olhamos. Olhar para aquela família, naquela viagem pelo deserto, alimentou minha esperança de vida. Cada filho disse o que sonha para o futuro. Eles sonham. Se há uma necessidade de que todo educador jamais pode se esquecer é lembrar aos nossos educandos que a vida sem sonho é só deserto. O sonho e a alegria são companheiros que aliviam a vida dos desertos e das noites com preguiça de amanhecer.

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