Meu Deus, que mundo é esse?! Em cada canto do mundo, um canto de amor.
Eu acordei inverno. O frio impedia o calor. A imagem era de uma névoa poderosa. Poderosa? Poderoso foi o nascer do sol, iluminando tudo. Mesmo no inverno. Nos tantos invernos da minha alma. Nos choros das despedidas. No amor sem amor. Na traição. No abandono.
Chorei o choro doído de carências acumuladas do passado. Quis quem não me quis. Abracei a certeza da primavera. E sorri. Sorri renascimentos. Sorri flores perfumadoras de vida. Sorri a desobrigação de exigir reciprocidades.
No outono dos meus sentimentos, ventei as projeções. Ninguém é feliz esperando do outro as cobertas da alma. A alma se cobre dentro. Na experiência do amar sem exigências. Na compreensão da chama iluminadora que mora dentro e que vence as escuridões de fora.
Fiz verão embaixo de árvores generosas que ofereciam sombras. Sombreei os dias cantando canções de esperança. A esperança mora dentro. A esperança desmente o frio que jura permanecer. Nada de fora permanece. A não ser o instante, quando o instante é sagrado de amor. Uma aspersão de amor e um instante dura a eternidade.
Lindo o instante em que ouvi de uma mulher generosa palavras de gratidão. Depois dela, vi o dia melhor. Vi natureza, presente do Artista que tudo vê. Árvores antigas e firmes unidas a terra. Nelas, deitado, vi o céu. E o ventar das nuvens. Caminhantes de um ponto a outro. Ponto que sou no mundo tão grande, também, caminho. Caminho cicatrizando as dores que doem. No corpo. Na alma. E, se vem cansaço, canto. E cantando descanso, contemplando.
Meu Deus, que mundo é esse?! As águas das cachoeiras, os rios onde nado, e nada me prende, porque rio. E os oceanos misteriosos. Contemplando um pôr do sol, contemplei o ir e vir das ondas. Onde elas nascem? Por que vêm e vão? E o sal que trazem? E o sal que salga a terra? E o sabor de viver a vida vivendo? Quem ensina? Quem faz nascer o que está dentro?
Desabitado nos invernos, agradeço a fé na primavera. E os renascimentos depois das mortes necessárias. O necessário é agradecer. O Tudo. O êxtase de amor diante de tudo. O poder contemplador da alma humana. Uma pausa. Um olhar. Um elevar. O poder de voar o voo dos pássaros que enfeitam o céu de liberdade.
A liberdade está dentro. Está em não nos sujarmos nas sujeiras dos outros. Está no desamarrar das amarras que amarramos nos descuidos. O desamarrar para o voar. O voar da alma nos tempos de ontem para recordar. Nos tempos de amanhã, para desejar. Mas sempre no hoje. No hoje, onde tudo está. No tal instante sagrado onde cabe toda a vida.
Meu Deus, que mundo é esse?! As rochas descansam serenas, serenidade é o que busco. As montanhas desenham belezas no horizonte. Há um horizonte a ser contemplado. Fora e dentro. E há pequenas pedras que, distantes da grande rocha, doem. E dizia o poeta que elas moram nos nossos caminhos. Digo eu ao poeta que nelas, também, encontro caminhos.
Nas dificuldades, também agradeço. O poder de saber que prossigo. Que o hoje que dói é pequeno demais diante da eternidade. Há uma luz vencendo tudo que me aguarda. É por ela que rio. No meu curso. Na minha alegria. É por ela que canto meu canto de amor.
Se desafino? Muitas vezes. Aprendi a gostar de mim assim mesmo. Distante das perfeições. Perfeito é apenas o instante, o instante em que vejo os ipês amarelos, o instante em que um animalzinho lindo abana sua alegria para mim. O instante em que a lembrança da minha mãe faz brincar de colo os pensamentos que viajam até ontem. O instante em que brota uma água quente de um dia frio.
O eterno instante, aspergido de amor.