Francisco Sayão Lobato Filho, o Dr. Kico, é médico psiquiatra
Me identifiquei com situações parecidas com as que eu havia vivenciado na família ou com os vizinhos. A diferença era que, nessas situações, não havia nenhum profissional chamado para mediar a situação.
Coisa parecida senti no meu primeiro emprego como médico, em um serviço psiquiátrico de urgência. Íamos à casa dos pacientes em crise para levá-los de ambulância para a clínica. Muitas vezes, não se faz necessária a internação. A mediação no núcleo familiar havia sido suficiente para a criação de estratégias de convivência mais suportáveis para todos, pois todo o ambiente se mostrava desestruturado.
Em 1982, comecei a trabalhar na emergência psiquiátrica do Instituto Philippe Pinel. A maior parte dos pacientes que chegavam ali não sabia por que estavam sendo internados ou consultados. Não estavam ali por vontade própria, e sim levados por familiares, pela polícia, pelos bombeiros, por vizinhos e outros.
Não existia protagonismo do paciente em seu tratamento. Era uma imposição com a qual não concordava nem se identificava.
Sendo psiquiatra, a tentação vaidosa de acreditar que teria o poder de modificar a forma de existir, de eliminar o que era considerado defeito ou doença de qualquer pessoa, teve que ser abandonada e substituída pela necessidade de conhecer e aceitar, dentro do possível, as particularidades que compõem cada sujeito.
Por muitos anos, vi a doença ser uma forma de identificar seu portador: o esquizofrênico, o bipolar, o deprimido. Funcionava como um cartão de apresentação de quem era aquele sujeito. Condição que, erroneamente, sugeria uma falta de capacidade de ser outra coisa que não doente.
O diagnóstico servia para classificar como diferente um ser vivo geneticamente e anatomicamente, se não igual, bastante semelhante. Na instituição de tratamento, o diagnóstico e a diferença são o principal objeto de atenção, ficando o restante em segundo plano.
Em 1996, passei a trabalhar no Hospital Dia do Pinel, onde a convivência era mais próxima. Ouvi um paciente tocando violão de forma muito talentosa e o convenci a fazermos uma pequena apresentação na Casa da Ciência, da UFRJ. Foi um evento bem-sucedido. Éramos três pessoas dividindo o protagonismo de forma igual.
Conheci e fiquei muito próximo de dois artistas plásticos, Átila e Mônica. Apesar do grande talento, havia pouco reconhecimento de seus trabalhos por serem esquizofrênicos e com forte isolamento social.
Passamos a organizar exposições com suas obras, chegando a expor no Museu Nacional de Belas Artes. Nesses dois casos, o diagnóstico ganhou uma proporção diferente, pois puderam afirmar suas identidades de músicos e artistas plásticos.
A ideia de montar uma oficina de culinária foi surpreendente. Um residente me ensinou a fazer um pão integral, e era só isso que fazíamos no princípio. Até que os pacientes começaram a trazer receitas diferentes para melhorar o cardápio dos encontros. Alguns familiares também começaram a participar, fazendo suas receitas.
A cozinha era um lugar de comunhão. Enquanto preparávamos o lanche e esperávamos que ficasse pronto, batíamos papo, tocávamos violão e contávamos piadas. Não havia diferença entre os participantes. Foi ali que aprendi a cozinhar.
Em 1998, fui convidado a ajudar a implantar um novo serviço, o Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ). Uma rara oportunidade para aplicar os conceitos do SUS e os preceitos da desejada Reforma Psiquiátrica, do cuidado em liberdade.
Vários programas foram implantados, alguns deles sugeridos por familiares dos próprios pacientes: visita domiciliar; Núcleo de Saúde Mental e Trabalho, como projetos de trabalho e geração de renda; articulação com os Consultórios na Rua; de ambulatório; Programa de Atendimento à Terceira Idade (Pater); Centro de Atenção a Pessoas com Transtorno do Espectro Autista de pessoas com mais de 18 anos; articulação com as Clínicas da Família; participação no Conselho Comunitário de Segurança do território; consultas com nutricionistas, entre outros.
Foi ficando evidente a necessidade de se contar com a atenção de uma equipe multiprofissional. As demandas eram variadas: documentos, moradia, benefícios que ajudassem a administrar com maior independência.
A psiquiatria não consegue caminhar de forma autossuficiente, como já se pensou um dia. Tem sido fundamental dividir o cuidado e contar com profissionais que ofereçam espaços de acolhimento, que possam despertar a vontade e a crença de que é possível melhorar.
Dessa forma, podemos contar com o protagonismo de quem está se tratando. Começamos a aprender qual é a melhor forma de lidar com quem está sob os nossos cuidados, sem julgamento e preconceito.
A voz de nossos usuários nunca teve alcance suficiente a ponto de virar ponto de interesse. Tive a sorte de poder participar de um grupo musical, o Harmonia Enlouquece, criado no CPRJ, em 2001, e liderado por Hamilton de Jesus Assunção, compositor, letrista e intérprete.
Suas músicas traziam um recado rápido e facilmente compreendido, ao contrário de longos e complicados discursos que pouco contribuem para a compreensão do sofrimento.
Nesse grupo, já passaram mais de 75 pessoas que, em algum momento, sentiram vontade de integrar o conjunto.
No dia 15 de agosto, o grupo lançará seu quinto trabalho musical no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab), que fica na Rua Pedro Ernesto, nº 80, Gamboa, a partir das 13 horas.
Para encerrar, uma frase de Nise da Silveira: “Para navegar contra a corrente, são necessárias condições raras: espírito de aventureiro, coragem, perseverança e paixão.”
Talvez essa frase também possa traduzir um pouco desses 46 anos.
Ao olhar para trás, percebo que a psiquiatria que aprendi não foi apenas aquela dos livros, dos diagnósticos e dos medicamentos. Foi, sobretudo, a que aprendi na convivência com as pessoas, nas casas, nas emergências, nos hospitais, nas cozinhas, nas oficinas, na música e na arte.
Aprendi que ninguém deveria ser reduzido ao seu diagnóstico e que, muitas vezes, cuidar não significa impor uma mudança, mas criar condições para que cada pessoa possa descobrir outras possibilidades de existir.
E, pensando em mim, agradeço a sorte de ter prosseguido, driblando a morte e mantendo, apesar de tudo, a esperança na vida.

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