Francisco Sayão Lobato Filho, o Dr. Kico, é médico psiquiatra

Em 1980, terminei meu internato no Instituto de Psiquiatria da UFRJ. A turma marcou um encontro para comemorar a aprovação e o fim do curso. Quando cheguei ao local da festa, ninguém falou comigo durante uns 15 minutos. Achei estranho. Acontece que eles estavam preparando a minha súmula psicopatológica.
Percebi que minhas características e minha maneira de me comportar davam elementos para que fizessem uma análise caricatural de quem eu era. E assim foi. A cada chegada de um colega, uma nova súmula era preparada e, depois, apresentada ao analisado.
Meu primeiro trabalho foi como auxiliar psiquiátrico. Passava o período do dia ou da noite acompanhando pessoas em crise, para tentar evitar internações. Eram plantões de 12 horas na casa do paciente.

Me identifiquei com situações parecidas com as que eu havia vivenciado na família ou com os vizinhos. A diferença era que, nessas situações, não havia nenhum profissional chamado para mediar a situação.

Coisa parecida senti no meu primeiro emprego como médico, em um serviço psiquiátrico de urgência. Íamos à casa dos pacientes em crise para levá-los de ambulância para a clínica. Muitas vezes, não se faz necessária a internação. A mediação no núcleo familiar havia sido suficiente para a criação de estratégias de convivência mais suportáveis para todos, pois todo o ambiente se mostrava desestruturado.

Em 1982, comecei a trabalhar na emergência psiquiátrica do Instituto Philippe Pinel. A maior parte dos pacientes que chegavam ali não sabia por que estavam sendo internados ou consultados. Não estavam ali por vontade própria, e sim levados por familiares, pela polícia, pelos bombeiros, por vizinhos e outros.

Não existia protagonismo do paciente em seu tratamento. Era uma imposição com a qual não concordava nem se identificava.

Sendo psiquiatra, a tentação vaidosa de acreditar que teria o poder de modificar a forma de existir, de eliminar o que era considerado defeito ou doença de qualquer pessoa, teve que ser abandonada e substituída pela necessidade de conhecer e aceitar, dentro do possível, as particularidades que compõem cada sujeito.

Por muitos anos, vi a doença ser uma forma de identificar seu portador: o esquizofrênico, o bipolar, o deprimido. Funcionava como um cartão de apresentação de quem era aquele sujeito. Condição que, erroneamente, sugeria uma falta de capacidade de ser outra coisa que não doente.

O diagnóstico servia para classificar como diferente um ser vivo geneticamente e anatomicamente, se não igual, bastante semelhante. Na instituição de tratamento, o diagnóstico e a diferença são o principal objeto de atenção, ficando o restante em segundo plano.

Em 1996, passei a trabalhar no Hospital Dia do Pinel, onde a convivência era mais próxima. Ouvi um paciente tocando violão de forma muito talentosa e o convenci a fazermos uma pequena apresentação na Casa da Ciência, da UFRJ. Foi um evento bem-sucedido. Éramos três pessoas dividindo o protagonismo de forma igual.

Conheci e fiquei muito próximo de dois artistas plásticos, Átila e Mônica. Apesar do grande talento, havia pouco reconhecimento de seus trabalhos por serem esquizofrênicos e com forte isolamento social.

Passamos a organizar exposições com suas obras, chegando a expor no Museu Nacional de Belas Artes. Nesses dois casos, o diagnóstico ganhou uma proporção diferente, pois puderam afirmar suas identidades de músicos e artistas plásticos.

A ideia de montar uma oficina de culinária foi surpreendente. Um residente me ensinou a fazer um pão integral, e era só isso que fazíamos no princípio. Até que os pacientes começaram a trazer receitas diferentes para melhorar o cardápio dos encontros. Alguns familiares também começaram a participar, fazendo suas receitas.

A cozinha era um lugar de comunhão. Enquanto preparávamos o lanche e esperávamos que ficasse pronto, batíamos papo, tocávamos violão e contávamos piadas. Não havia diferença entre os participantes. Foi ali que aprendi a cozinhar.

Em 1998, fui convidado a ajudar a implantar um novo serviço, o Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ). Uma rara oportunidade para aplicar os conceitos do SUS e os preceitos da desejada Reforma Psiquiátrica, do cuidado em liberdade.

Vários programas foram implantados, alguns deles sugeridos por familiares dos próprios pacientes: visita domiciliar; Núcleo de Saúde Mental e Trabalho, como projetos de trabalho e geração de renda; articulação com os Consultórios na Rua; de ambulatório; Programa de Atendimento à Terceira Idade (Pater); Centro de Atenção a Pessoas com Transtorno do Espectro Autista de pessoas com mais de 18 anos; articulação com as Clínicas da Família; participação no Conselho Comunitário de Segurança do território; consultas com nutricionistas, entre outros.

Foi ficando evidente a necessidade de se contar com a atenção de uma equipe multiprofissional. As demandas eram variadas: documentos, moradia, benefícios que ajudassem a administrar com maior independência.

A psiquiatria não consegue caminhar de forma autossuficiente, como já se pensou um dia. Tem sido fundamental dividir o cuidado e contar com profissionais que ofereçam espaços de acolhimento, que possam despertar a vontade e a crença de que é possível melhorar.

Dessa forma, podemos contar com o protagonismo de quem está se tratando. Começamos a aprender qual é a melhor forma de lidar com quem está sob os nossos cuidados, sem julgamento e preconceito.

A voz de nossos usuários nunca teve alcance suficiente a ponto de virar ponto de interesse. Tive a sorte de poder participar de um grupo musical, o Harmonia Enlouquece, criado no CPRJ, em 2001, e liderado por Hamilton de Jesus Assunção, compositor, letrista e intérprete.

Suas músicas traziam um recado rápido e facilmente compreendido, ao contrário de longos e complicados discursos que pouco contribuem para a compreensão do sofrimento.

Nesse grupo, já passaram mais de 75 pessoas que, em algum momento, sentiram vontade de integrar o conjunto.

No dia 15 de agosto, o grupo lançará seu quinto trabalho musical no Museu da História e da Cultura Afro-Brasileira (MuhCab), que fica na Rua Pedro Ernesto, nº 80, Gamboa, a partir das 13 horas.

Para encerrar, uma frase de Nise da Silveira: “Para navegar contra a corrente, são necessárias condições raras: espírito de aventureiro, coragem, perseverança e paixão.”

Talvez essa frase também possa traduzir um pouco desses 46 anos.

Ao olhar para trás, percebo que a psiquiatria que aprendi não foi apenas aquela dos livros, dos diagnósticos e dos medicamentos. Foi, sobretudo, a que aprendi na convivência com as pessoas, nas casas, nas emergências, nos hospitais, nas cozinhas, nas oficinas, na música e na arte.

Aprendi que ninguém deveria ser reduzido ao seu diagnóstico e que, muitas vezes, cuidar não significa impor uma mudança, mas criar condições para que cada pessoa possa descobrir outras possibilidades de existir.

E, pensando em mim, agradeço a sorte de ter prosseguido, driblando a morte e mantendo, apesar de tudo, a esperança na vida.
Francisco Sayão Lobato Filho, o Dr. Kico, é médico psiquiatra e diretor-geral do Centro Psiquiátrico Rio de Janeiro (CPRJ)