Um dos acadêmicos fazia um comentário não muito elegante com um outro acadêmico, o que é incomum, sobre uma das nossas mais amadas escritoras, Lygia Fagundes Telles. O que ouviu não deu andamento. Talvez em respeito à Lygia e à palavra.
Ela não estava muito distante deles. Estávamos todos na mesma mesa. Ela conversando comigo. Foi quando eu disse que ela não ficasse chateada. Ela sorriu lindo, voltando ao que falávamos. Os poetas. Os poetas que morreram cedo. Uma escola de amar muito e depois partir.
"Chateada com Fagundes Varela, com Castro Alves, com Álvares de Azevedo?"
"Não", eu disse. "Com o que ele estava dizendo."
"Meu querido, sabe que eu não tenho escutado muito bem, preciso ir ao médico, inclusive. Ouço muito pouco."
E voltou a dizer de cor os versos dos poetas românticos, da escola de morrer cedo. “Como é linda a musa libérrima de Castro Alves.”
Outros escritores iam entrando, sentando e conversando. E ela ouvia a todos. E eu fui entendendo a sabedoria de não ouvir o que não precisa. De não dar importância a palavras sem importância. Naquele dia, enquanto tomávamos o chá acadêmico, eu compreendia que os sons do amor silenciam os outros.
Entrou Esther de Figueiredo Ferraz e, com ela, sua delicadeza. As duas estavam próximas, Lygia e Esther, e a conversa foi dos românticos para Machado de Assis.
Esther foi a primeira de tantos afazeres na vida. A primeira mulher a ser ministra, a primeira mulher a ser reitora, a primeira mulher a fazer júri, a defender a justiça nas causas que abraçava.
O tema das duas era Capitu. O sol, já tendo ido, estava nelas. Esther argumentando que toda a perspectiva era de um homem, de um homem ciumento, talvez. De detalhes de fora que mudam por sentimentos de dentro. Lygia disse que, na primeira leitura de Dom Casmurro, tinha a certeza da traição e que, na segunda, havia mudado de ideia e que, na terceira, "a dúvida". Dizia e repetia: "a dúvida". E prosseguia elogiando Machado. "Ele é melhor do que Flaubert. Flaubert deixou claro quem era Madame Bovary, já Machado, prosseguimos na dúvida".
E Esther concordou, humanizando ainda mais o homem Machado, o menino que nasceu no morro do Livramento, que perdeu a mãe, que teve uma madrasta contadora de histórias, que era manco, gago, epilético. E que amou a palavra e o seu poder de criar personagens e de iluminar o mundo de dentro.
Eu era o mais jovem naqueles encontros e um aprendiz confesso do que os anos foram dando de presente àquelas vidas tão plenas.
Ouvir é um dos mais elevados exercícios do amar, é uma escola de viver. Pensei nos dizeres incorretos e na testa franzida do que disse. E nas sujeiras que escorriam da alma. E nas mãos machucadas pelo tempo do desamor. E pensei em Lygia, a que não autorizava o que não vinha do amor.
Por que desperdiçar a palavra em ataques ou até em defesas de assuntos que não assuntam a vida? O melhor é falar dos poetas ou dos escritores que semeiam dúvida pelo mundo. Ou dos afetos.
Lygia estava com uma echarpe e, depois de Machado, brincou com Esther de que não queria o fim de Isadora Duncan. Morreram centenárias as duas, Lygia e Esther.
Na Academia Paulista de Letras, nas suas salas, nos seus corredores, na sua biblioteca, na sua memória, elas conversam. E outros também, como Paulo Bomfim e Mário de Andrade, conversam sobre poesia e sobre a prosa da vida. Mário e Monteiro Lobato talvez revisitem o que foi dito sobre a Semana de 22.
Não sei como são as letras na eternidade, nem como são as conversas, nem se há chá. Então, seguindo os argumentos de Lygia, que linda é a dúvida. A certeza é um mau hábito que os escritores devem evitar. E os humanos, em geral. É na dúvida que nos abraçamos ao Sagrado e escutamos dentro, quando o que há fora é barulho sem música.
As quintas-feiras prosseguem em nossa Casa do Arouche e prosseguem bonitas, com outros escritores e outras conversas. Mas aqueles dias...aquele dia era tão bom que parecia eterno. E quem disse que não foi?

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