Como permanecer plenamente humano em um mundo marcado pela impermanência? Resistir como a montanha que, justamente porque se deixa atravessar pelos ventos, continua sendo aquilo que é.
Passamos boa parte da vida respondendo ao nome que recebemos. É por ele que somos chamados, registrados, reconhecidos. Nele cabem a história, a família, a memória e o afeto. Mas talvez exista um outro olhar, mais antigo do que qualquer palavra pronunciada sobre nós. Um olhar que não nos define, mas nos convoca.
Não um olhar descrito em alguma linguagem perdida. Nem um código escondido no céu. Um olhar que é menos palavra do que direção. Vivemos tentando descobri-lo.
Dizem que alguns olhares apenas observam. Existem os que, porém, recordam. Não revelam um segredo escondido no mundo, mas despertam algo adormecido em nós.
São olhares que não procuram respostas. Apenas permanecem. Não para decifrar o mundo, mas para permitir que ele lentamente se revele.
Há uma forma de ver que não ilumina as coisas de fora para dentro; antes, desperta nelas algo que sempre esteve à espera. Quando somos encontrados por esse olhar, vindo de alguém, de um silêncio ou de uma manhã qualquer, acontece algo quase imperceptível: deixamos de nos sentir observados e passamos a nos reconhecer.
Nesse instante, uma parte esquecida volta, delicadamente, para nossa casa. E muda conosco sem deixar de ser a mesma, como um rio que permanece rio, ainda que suas águas jamais sejam as mesmas.
Amar é reconhecer, no outro, um olhar que nos faltava. Criar é acrescentar uma nova perspectiva ao próprio olhar. E talvez viver seja aproximar-se, lentamente, daquilo que ainda não conseguimos nos tornar.
Enquanto esse instante não chega, seguimos atentos aos olhares que nos encontram pelo caminho. Mas, em algum lugar entre quem fomos e aquilo que ainda espera aflorar, permanece uma pergunta: e se viver for apenas aprender, devagarinho, a escutar o que o olhar secreto tenta nos dizer?
Manoel Valente Figueiredo Neto é jornalista e jurista
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.