Isa Colli, jornalista e escritoraAcervo pessoal

A campanha eleitoral está a pleno vapor. E, junto com ela, há também uma outra disputa, menos visível e nem por isso menos importante: a batalha pela nossa atenção.
Neste período, mensagens, vídeos, áudios, imagens e manchetes chegam aos celulares em uma velocidade difícil de acompanhar. Algumas são verdadeiras. Outras, não. E muitas estarão naquele território perigoso em que uma informação verídica aparece misturada a uma mentira, muitas vezes um vídeo é retirado do contexto ou uma imagem é produzida por inteligência artificial.
É aí que entra uma responsabilidade que não é apenas dos candidatos, partidos, plataformas ou da Justiça Eleitoral. É nossa também.
Antes de encaminhar uma mensagem para um grupo de família, publicar nas redes ou simplesmente ajudar um conteúdo a ganhar alcance, vale fazer uma pausa. Quem publicou? Qual é a fonte? A informação aparece em outros veículos jornalísticos? Há data? E, principalmente: isso parece bom demais, ou absurdo demais, para ser verdade?
A curiosidade é uma característica humana. O que nos surpreende, assusta ou provoca indignação costuma chamar mais atenção. Talvez por isso as histórias mais improváveis sejam também as mais fáceis de viralizar. É uma constatação triste, mas real.
A filósofa Márcia Tiburi chama atenção, em um vídeo de 2022, mas extremamente atual, para esse mecanismo ao tratar a desinformação como uma forma de manipulação da crença e da capacidade de pensar e refletir. A questão, portanto, não é apenas descobrir se uma notícia é verdadeira ou falsa. É perceber por que aquela mensagem conseguiu despertar em nós uma reação tão imediata.
Em uma eleição, essa reflexão ganha ainda mais importância. Estamos escolhendo pessoas que vão governar, elaborar leis e tomar decisões que terão consequências na vida de todos nos próximos quatro anos.
A Justiça Eleitoral sabe que o problema é sério. Para as Eleições 2026, o TSE reforçou as regras de enfrentamento à desinformação, inclusive sobre conteúdos produzidos ou modificados por inteligência artificial. A legislação também prevê punição para quem divulga, durante a campanha, fatos que sabe serem inverídicos sobre partidos ou candidatos e capazes de influenciar o eleitorado.
Existem ferramentas que podem ajudar. O eleitor pode consultar a página “Fato ou Boato”, da Justiça Eleitoral, que reúne iniciativas de checagem, incluindo o Boatos.org . Também é possível procurar a mesma informação em diferentes veículos jornalísticos e recorrer diretamente às fontes oficiais quando o assunto envolver instituições públicas, pesquisas, leis ou decisões da Justiça.
Não se trata de desconfiar de tudo. Trata-se de desenvolver o hábito de verificar.
E talvez esse seja o nosso gesto de cidadania nesta eleição: antes de acreditar, conferir; antes de compartilhar, pensar.
Ninguém ganha quando a desinformação tumultua o processo eleitoral. Perde o candidato injustamente atacado, perde o eleitor que toma uma decisão baseado em uma mentira e perde, sobretudo, a democracia. A escolha é nossa.
* Isa Colli é jornalista e escritora