O crime organizado do Rio de Janeiro acaba de abrir uma nova frente de batalha que não está nas ruas, vielas ou barricadas. Está no céu. O uso de drones por facções criminosas para monitorar adversários e lançar explosivos deixou de ser uma possibilidade futurista para se transformar em uma realidade concreta na guerra que a Cidade vive há anos. Já em 2025, em uma operação, a Polícia Federal recuperou a informação de que um investigado fornecia drones utilizados para lançar granadas contra rivais na região da Penha. O preocupante é que o fenômeno cresceu e está crescendo, sob a inércia do Estado.
As facções criminosas chegaram ao ponto de erguer coberturas sobre ruas e vielas para dificultar tanto a vigilância aérea da polícia quanto os ataques de grupos rivais. Não estamos falando mais de criminosos improvisando com celulares e rádios. Agora, é a tecnologia incorporada à estratégia de guerra do crime organizado.
Quando a criminalidade controla território, impõe regras à população, instala barricadas, utiliza fuzis, monitora a movimentação policial e passa a empregar aeronaves remotamente pilotadas para atacar adversários, estamos diante de algo muito maior do que o tráfico tradicional de drogas. Trata-se de um campo de guerra, no qual narcotraficantes possuem capacidade operacional semelhante à de grupos terroristas.
O drone é apenas a face mais recente dessa transformação e a resposta do Estado não pode ser apenas comprar mais drones. É necessário ampliar sistemas de detecção e neutralização, como demonstram iniciativas estaduais e federais recentes.
Mas tecnologia não ocupa território. Polícia ocupa. E aqui está o ponto que o Rio precisa encarar. O Estado brasileiro não pode aceitar comunidades onde a autoridade pública é exercida por traficantes ou milicianos. Não pode aceitar ruas fechadas por barricadas, comércio submetido a taxas criminosas, moradores submetidos a regras impostas por fuzis e agora, também, a ameaça de explosivos que podem cair do céu. É preciso estabelecer um Programa de retomada territorial das comunidades, permanente, planejado e integrado, com policiamento ostensivo, inteligência, investigação financeira, combate à lavagem de dinheiro, retirada de barricadas, apreensão de armas, controle de acessos, presença de serviços públicos e, principalmente, continuidade.
A polícia precisa voltar a ser vista diariamente onde hoje o criminoso é a autoridade. E isso não significa transformar comunidades em campos de batalha, pelo contrário. É preciso retirar delas o poder armado que transforma moradores em reféns.
Ainda sobre os drones, há uma questão que precisa ser observada. Há relatos de brasileiros voluntários que passaram por treinamento militar e adquiriram experiência de combate na guerra da Ucrânia. Não significa que todo brasileiro que tenha lutado lá represente uma ameaça, mas seria ingênuo ignorar a experiência adquirida em uma guerra na qual drones se transformaram em ferramentas centrais de reconhecimento, ataque e sobrevivência. Brasileiros que retornem ao país depois de vivenciar a guerra deveriam ser submetidos a procedimentos de inteligência e avaliação de risco dentro da lei.
Enfim, o crime organizado já percebeu que o céu também é território. Agora cabe ao Estado brasileiro decidir se vai continuar chegando depois ou se finalmente vai aprender a antecipar o inimigo.
O Rio precisa de inteligência, tecnologia, integração e, sobretudo, de algo mais básico, que é a presença policial ostensiva e permanente. Não existe retomada da cidadania onde o Estado não consegue garantir o território. E, quando o crime começa a fazer guerra pelo ar, não basta olhar para o céu. É preciso retomar o chão.
Marcos Espínola é advogado criminalista e especialista em segurança pública
Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor.