Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de PsiquiatriaDivulgação
O perigo que chega disfarçado: vapes e pods ameaçam criar uma nova geração dependente
Com formatos atraentes, sabores adocicados e forte presença nas redes sociais, esses produtos seduzem principalmente crianças e adolescentes
Em 29 de agosto, o Brasil marca o Dia Nacional de Combate ao Fumo. Mais do que uma data no calendário, é um chamado à prevenção diante de uma ameaça que ganhou aparência moderna: os dispositivos eletrônicos para fumar, conhecidos como vapes, pods ou cigarros eletrônicos.
Com formatos atraentes, sabores adocicados e forte presença nas redes sociais, esses produtos seduzem principalmente crianças e adolescentes. A embalagem mudou, mas o risco permanece – e ganhou novas estratégias de aproximação. Cigarro eletrônico não é vapor de água, não é inofensivo e não deve ser tratado como simples acessório de comportamento.
Muitos desses dispositivos contêm nicotina, substância com elevado potencial de dependência. Na adolescência, quando o cérebro ainda está em desenvolvimento, a exposição pode afetar circuitos relacionados à atenção, à aprendizagem e ao controle dos impulsos. Além disso, o aerossol inalado pode conter substâncias tóxicas e cancerígenas, inclusive metais pesados, com danos potenciais aos pulmões, ao sistema cardiovascular e à saúde bucal.
Há outro agravante: no Brasil, a fabricação, a importação, a comercialização, a distribuição e a propaganda desses dispositivos são proibidas pela Anvisa. Como os produtos disponíveis provêm do comércio ilegal, não há garantia sobre sua composição, concentração de nicotina ou controle de qualidade. O rótulo, quando existe, pode não revelar o que realmente está sendo inalado.
As evidências também mostram que adolescentes que usam cigarros eletrônicos apresentam maior probabilidade de, posteriormente, consumir cigarros convencionais. Não se trata, portanto, de uma alternativa aceitável para quem nunca fumou, muito menos para crianças e adolescentes.
No campo da psiquiatria, é indispensável cautela: estudos encontram associação entre o uso de cigarros eletrônicos e sintomas de ansiedade, depressão, estresse e comportamento impulsivo, mas essa relação pode ser bidirecional. Jovens com maior vulnerabilidade emocional podem procurar a nicotina, enquanto a dependência, a abstinência e o uso continuado podem agravar sintomas. Associação não autoriza simplificações, mas exige atenção.
Por trás de cada vape vendido como diversão pode existir o início de uma dependência. E, por trás de cada adolescente que experimenta, há um cérebro em desenvolvimento que precisa ser protegido. A pergunta não deve ser apenas se o cigarro eletrônico é menos nocivo que o convencional. A pergunta essencial é: por que permitir que uma nova geração seja apresentada tão cedo à nicotina?
A prevenção começa com informação clara, fiscalização efetiva e diálogo em casa, nas escolas e nos serviços de saúde. Quanto mais cedo impedirmos o primeiro contato, menor será o risco de que a curiosidade se transforme em dependência.
Dr. Antônio Geraldo da Silva - Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)
@antoniogeraldo

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