Isa Colli, jornalista e escritoraAcervo pessoal

Uma criança levanta a mão para responder à professora. Antes que termine a frase, alguém ri de seu sotaque. A cena poderia acontecer em qualquer escola e revela como o preconceito pode chegar cedo: uma maneira de falar vira motivo de constrangimento, e uma criança aprende a vigiar a própria voz.

Na semana em que se celebra o povo nordestino, é fundamental refletir e olhar para situações como essa. Entre homenagens, músicas e mensagens de orgulho, cabe uma pergunta sobre o cotidiano: que acolhimento oferecemos às pessoas cujas origens celebramos?

O respeito aparece na escuta, nas oportunidades e na liberdade de alguém se apresentar ao mundo com suas marcas de pertencimento. A origem de uma pessoa jamais deveria funcionar como medida de sua inteligência, de sua competência ou do valor de suas escolhas.

O Nordeste reúne nove estados e uma enorme diversidade de histórias, paisagens, conhecimentos e modos de viver. Reduzir essa região a uma imagem única empobrece nossa compreensão do país. Há muitos Nordestes: sertões, cidades, comunidades rurais, universidades, centros de pesquisa, territórios indígenas e quilombolas. Cada um participa da construção brasileira com experiências próprias.

Essa pluralidade também precisa chegar às escolas. A literatura de cordel, a obra de escritores nordestinos e os saberes das comunidades oferecem caminhos para ampliar o repertório dos estudantes. Quando aparecem ao longo do ano, com profundidade e contexto, ajudam as crianças a reconhecer uma cultura viva, que continua criando e transformando o presente.

O mesmo cuidado vale para a linguagem. Ensinar a norma-padrão amplia possibilidades de comunicação e participação social. Esse aprendizado pode acontecer com respeito às variedades do português e à história que cada estudante traz de casa. Uma criança aprende melhor quando encontra espaço para perguntar, experimentar e falar com confiança.

Nas famílias, essa formação acontece em gestos pequenos. Um adulto pode interromper uma brincadeira que humilha, explicar por que uma generalização é injusta e mostrar interesse por uma experiência diferente da sua. Assim, o respeito ganha forma diante das crianças, que observam tanto nossas palavras quanto nossas atitudes.

Na vida pública, a responsabilidade é igualmente concreta. Divergências políticas pedem argumentos sobre propostas, decisões e consequências. Atribuir inferioridade a uma população por sua origem ou por suas escolhas eleitorais desvia a discussão e transforma cidadãos em alvos. Uma democracia amadurece quando seus participantes reconhecem uns aos outros como pessoas capazes de pensar e decidir.

Também merece atenção a maneira como elogiamos. A imagem do nordestino forte e resistente pode expressar admiração, mas precisa deixar espaço para a pessoa inteira: aquela que se cansa, deseja conforto, precisa de cuidado e tem direito a oportunidades. Ninguém deveria precisar demonstrar heroísmo para receber respeito.

Celebrar o Nordeste é reconhecer sua contribuição para o país e afirmar que nenhuma origem ou modo de falar pode justificar o preconceito. Esse compromisso se traduz em atitudes cotidianas, numa sala de aula, numa entrevista de emprego, numa conversa de família.

Voltemos à criança que levantou a mão. Que ela encontre alguém disposto a ouvir sua resposta até o fim. E que cresça sabendo que sua voz tem lugar — com o sotaque, a memória e a história que carrega.
*Isa Colli é jornalista e escritora