Ronaldo Damião é médico urologista e membro da ANM e Secretário de Estado de Saúde do RioDivulgação
Durante muito tempo, essa forma de assistência médica foi associada exclusivamente aos pacientes em fase terminal, quando já estavam esgotadas as possibilidades terapêuticas de cura. Mas esse conceito evoluiu. Hoje, o que se aplica é uma abordagem humanizada, voltada ao alívio do sofrimento, ao controle de sintomas e à melhoria da qualidade de vida do paciente e de sua família, independentemente de ainda existirem possibilidades de tratamento curativo.
Essa mudança também chegou à rede de saúde. O Hospital Estadual Eduardo Rabello (HEER), referência no atendimento de média e alta complexidade a pacientes com mais de 60 anos, recém-abriu 31 novos leitos direcionados ao cuidado paliativo, sendo a primeira unidade a ter espaço exclusivo para esse tipo de acolhimento por meio de uma equipe multidisciplinar.
É um passo importante para consolidarmos uma assistência que não se limita a tratar a doença; ela apoia-se em uma perspectiva mais holística, reconhecendo que o suporte emocional possui impacto importante no processo, além do tratamento clínico medicamentoso. Um exemplo dessa inovação na abordagem é o prontuário afetivo. Ele permite que os profissionais conheçam a história, hábitos, preferências e os vínculos de cada paciente.
E estamos avançando cada vez mais nessa direção. A Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) criou o primeiro curso de cuidados paliativos destinado a trabalhadores de nível médio e fundamental do SUS, por meio da Escola de Formação Técnica em Saúde Enfermeira Izabel dos Santos (ETIS), vinculada à Secretaria.
A iniciativa demonstra que a qualificação das equipes é fundamental para ampliar a capacidade do SUS de oferecer um tratamento mais preparado e acolhedor. Cuidar de um paciente em situação de fragilidade exige conhecimento técnico, mas também preparação do profissional de saúde para lidar com a dor, os sintomas, as necessidades emocionais e sociais dele, além das demandas de seus familiares.
Dados do Ministério da Saúde apontam que, no Brasil, cerca de 625 mil pacientes precisam de cuidados paliativos, o que evidencia a relevância de um novo olhar para esse tema. No caso da SES-RJ, as ações estão alinhadas com as medidas previstas no Plano Estadual de Cuidados Paliativos, lançado em 2025.
Contudo, preparar a área da saúde para o envelhecimento saudável também significa prevenir problemas que podem comprometer a autonomia. Entre eles estão as quedas, um dos grandes desafios da população idosa. Levantamento da SES-RJ, com base no Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS), aponta que as internações de pessoas com 60 anos ou mais por quedas passaram de 6.912, em 2015, para 13.539, em 2025, o equivalente a um aumento de 95%.
Uma queda pode provocar fraturas, perda de mobilidade, internações prolongadas e redução da independência. Por isso, o Plano Estadual de Saúde da Pessoa Idosa estabelece entre suas estratégias a capacitação das equipes para prevenir internações provocadas por quedas e fraturas de fêmur. Profissionais preparados têm condições de identificar fatores de risco, orientar idosos e suas famílias, estimulando medidas de segurança; assim como uma rede especializada pode reduzir complicações e favorecer a recuperação.
Cerca de três milhões de pessoas com 60 anos ou mais vivem no estado, segundo o Censo Demográfico de 2022, o último realizado no Brasil. Significa dizer que o Rio de Janeiro precisa se preparar para uma população cada vez mais longeva e investir em prevenção, qualificação profissional, estruturas especializadas e uma assistência que enxergue o idoso em sua integralidade.

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