Irmãs as três, Maria Antônia, Maria Augusta e Maria Cecília.
A mãe não tinha Maria no nome, só no coração. Era das rezas longas e do olhar puro e silencioso diante da vida. E a tudo agradecia e pedia as bênçãos de Maria, a mãe de Jesus.
O pai das três morreu cedo demais. Eram as meninas e os seus olhares sem alegria diante do caixão.Eu estava lá. Criança, também. Eu conhecia o morto, mas sem muita convivência. Gostava de Ruth, a mãe das meninas, que me contava histórias e que deixava eu nadar com as filhas em um tanque grande que preenchia nossas vidas em dias de sol. E, depois, era um café. E, depois era aquela mulher linda com os olhos de céu tocando violino.
Morreu ele em um inverno.Desde cedo, eu costumava ir a velórios e, quando voltava, minha mãe queria saber quem chorou e quem não chorou.
"Nossa, a viúva, não chorou? Que estranho?"
"O marido chorou quanto tempo?"
"O filho chorou muito ou pouco?"
Senti, então, que chorar era uma necessidade, um dever.
No velório do marido de Ruth, do pai das Marias, eu achei que eu precisava chorar. Era uma questão de respeito. De demonstração à Ruth do quanto eu a amava.Ocorre que, diante das orações e das conversas sobre temas tantos, eu não encontrava espaço.
Foi, então, que aproveitei uma cantoria triste, com uma música que fala do encontro no céu, um dia, que fechei os olhos, pensei na morte da minha mãe e consegui chorar.
Chorei tanto que as três Marias tiveram que me acalmar. Eu, então, recebi o abraço de Ruth, seu perfume, sua delicadeza. Que mulher era Ruth!
Nos dias que se seguiram, minha mãe recebeu cumprimentos de várias pessoas da cidade pelo filho tão sensível. Em mim, moravam dois sentimentos, o de felicidade por ter conseguido chorar e o de estranhamento por ter sido acalmado pelas filhas que deveriam estar mais tristes do que eu.
Éramos vizinhos e eu queria estar na casa de Ruth. Achei que, aos 7 anos ou menos, eu podia ocupar o lugar do morto. Eram apenas mulheres, deveriam estar precisando de mim. Foi quando propus ficar com elas. Ruth sorriu, deixou um pedaço de bolo de cenoura esperando no prato, tão apetitoso, e levantou para abraçar meus afetos.
"Você vai tomar conta de todas nós, então?!" E as meninas também riram. Eu era um pouco mais novo do que elas e queria ocupar o lugar do pai.Desentendi o riso. Eu estava falando sério.
Quando penso hoje parece que foi tudo em uma outra vida. Vivemos muitas vidas em uma.As três Marias nunca se deixaram. Eu sei bem porque sou casado com uma delas, Maria Antônia.As irmãs ficaram solteiras. As três tocam violino como a mãe.
Ruth foi embora há não muito. Morou conosco nos últimos tempos.Minha mulher ainda brinca que ela é a quarta no meu coração. Primeiro a minha mãe, depois a nossa filha, depois a mãe dela, Ruth, e ela por fim.
Não sei se há hierarquia nos sentimentos. Sei que sentimentos existem para serem sentidos. Que encontros nos encontram para nos ensinar felicidade.
As três Marias tocam juntas na orquestra. Acho lindo. Acho lindo ver a música preenchendo a vida. A música é o sussurrar de Deus no silêncio da humanidade.A música cura os destinos e nos faz esperançar por belezas.
Ruth morreu na primavera. Morreu na estação cujo anúncio faz os ipês amarelos acordarem.
Ela gostava de andar na avenida da cidade e ver os ipês e agradecer a Deus pela vida.Ruth não encontrou outro amor. Fiquei eu sendo o único homem daquela família. Então, eu não estava tão errado na minha quase adolescência.
Quando vasculho a ausência dos que morreram, revivo essas histórias.As histórias do interior. Das cadeiras na calçada, no verão, sentindo a brisa gostosa da noite e o canto das cigarras que nasceram só para o prazer. Que morrem sem saber que vivem tão pouco. Não comem. Não bebem. Não se preocupam com nada. Apenas cantam. São filhas do desejo. Quando o desejo se vai, elas se vão.
Nasci no outono. Na estação dos ventos. Os ventos da vida ventaram pessoas que amei e ventaram outras para mim.
Minha filha. E, daqui a pouco, sua filha. Ela está grávida. Como é lindo uma mulher grávida.
Quem gosta da vida, vez em quando, autoriza algumas ilusões de que o tempo desacelere, de que o instante possa estacionar um pouco para ser celebrado.
E quem disse que não pode? Estou eu aqui celebrando instantes eternos que já deixaram de ser há tanto. Hoje rio dos meus sonhos de menino de ser o novo marido de Ruth. Sua filha, minha mulher, tem os seus olhos, os seus dedos finos e longos, o seu amor pela música.
Não. Não pensem que é transferência. Amo minha mulher profundamente. E amo as lembranças de tantos instantes em que eu pude sentir. Afinal, o sentimento é o que há de mais lindo no mundo.