A jornalista Letícia quando fazia home office durante a madrugadaDivulgação

O home office, tem se tornado cada vez mais comum, trazendo flexibilidade, mas também desafios para a saúde mental. Sem limites claros entre as tarefas profissionais e pessoais, muitos acabam enfrentando sobrecarga e a dificuldade de desligar. Esse cenário, muitas vezes, pode levar ao burnout, um esgotamento físico e emocional.
Segundo a psicóloga Bárbara Couto, mestre em Psicologia Clínica e Saúde, a falta de disciplina e a ausência de limites claros entre as atividades profissionais e pessoais podem resultar em uma sobrecarga de tarefas. O que antes era um ritmo de “dupla ou tripla jornada - com responsabilidades domésticas e da maternidade após o expediente - pode, com o tempo, se tornar uma mistura de tudo isso, sem intervalos ou folgas. Esse cenário, explica a psicóloga, pode levar ao burnout, um estado de exaustão extrema, física e emocional.

O trabalho remoto para muitos, não traz apenas mais tarefas, mas também uma sensação constante de esta “em alerta”, com a pressão de responder imediatamente a mensagens ou demandas. Isso ocorre porque, ao trabalhar em casa, o ambiente doméstico se funde com o corporativo, dificultando a separação entre o trabalho e o descanso. “Essa sobrecarga de responsabilidades, combinada com a falta de tempo para desligar do trabalho, cria o contexto perfeito para o burnout”, comenta Bárbara Couto.
O Impacto Psicológico de Trabalhar em Casa
Em um ambiente de trabalho tradicional, a rotina de sair de casa e ir ao escritório ajuda a marcar a transição entre o espaço pessoal e o profissional. Ao retornar para casa após o expediente, o cérebro se ajusta para focar na vida pessoal e no descanso. Contudo, no home office, a casa se torna um local de constante pressão, onde as tarefas do trabalho se misturam com as demandas pessoais. Isso altera a percepção do ambiente, deixando de ser um refúgio para se tornar um local de trabalho sem fim.

“Quando o trabalho invade o espaço pessoal, o cérebro perde a capacidade de distinguir entre os dois ambientes, passando a associar a casa a um espaço de obrigação constante. Isso pode fazer com que a pessoa sinta que não tem direito ao descanso, ao lazer ou a momentos de qualidade com a família”, observa Bárbara. Ela acrescenta que a falta de um espaço exclusivo para o trabalho dentro de casa, como um escritório, pode intensificar ainda mais essa confusão mental, potencializando o esgotamento.

Esse quadro de sobrecarga emocional e mental não deve ser subestimado. A psicóloga alerta que, para evitar o burnout, é fundamental estabelecer limites claros e buscar formas de desconectar, tanto física quanto emocionalmente, do trabalho. Isso inclui separar o espaço destinado ao trabalho e ao lazer e garantir momentos para o descanso e a convivência familiar, fundamentais para a saúde mental.
Aumento de afastamentos por Burnout - dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram um aumento de 136% nos afastamentos por burnout em 2023, com 421 registros, em comparação com 178 afastamentos em 2019. Esse crescimento está diretamente relacionado à adoção do home office durante a pandemia de coronavírus.

Home office em ascensão - segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 8,3% dos brasileiros estavam em home office em junho de 2024, um aumento em relação aos 5,8% registrados em 2019. A modalidade continua sendo uma tendência pós-pandemia, especialmente entre os funcionários com contrato formal.

Mulheres lideram o home office - a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do IBGE revela que as mulheres representam 13,4% dos trabalhadores remotos. Esse número reflete a sobrecarga de atividades domésticas e o cuidado com os filhos, que ainda recaem em grande parte sobre elas.
O que fazer quando se é diagnosticado com burnout?

O diagnóstico de burnout exige acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Após um descanso, é importante reduzir as demandas de trabalho e estabelecer limites. Atividades físicas, hobbies e uma rotina de sono saudável são fundamentais para a recuperação.

Como trabalhar em home-office de forma saudável?

Para evitar o burnout no home office, é essencial criar um horário fixo de trabalho, fazer pausas, e ter um ambiente dedicado para isso. Além disso, manter a interação social, praticar exercícios e equilibrar o trabalho com momentos de lazer são chave para preservar a saúde mental.
Jornalista conta Experiência de Burnout

Letícia Graf, jornalista de 25 anos, compartilha sua experiência de estresse, pressão excessiva e como isso levou ao diagnóstico de burnout após dois anos trabalhando em uma empresa de comunicação no modelo home office.

'Me senti muito humilhada e triste'

Letícia conta que, logo após começar a trabalhar de madrugada, já sentiu um grande desconforto com o ambiente. “Com apenas um mês, já percebi o tratamento ruim não só comigo, mas também com meus colegas. A pressão para fazer tudo rapidamente era imensa”, relata.

De acordo com ela, a situação piorou quando o chefe começou a reclamar constantemente da produtividade da equipe, muitas vezes de maneira agressiva no chat do grupo. “Ele dizia que estava falando com as paredes e que ninguém ouvia nada”, lembra Letícia.

O ponto culminante ocorreu após dois anos na empresa. “No dia em que completei dois anos, o chefe fez uma reunião e mostrou a produção de cada um. Quando chegou à minha vez, ele apontou que minha produção estava baixa, e todo mundo viu. Me senti muito humilhada e triste”, desabafa.
Letícia, que já tomava remédios para ansiedade, viu sua situação piorar ainda mais após essa reunião. “Eu já não dormia direito, porque trabalhava de madrugada, mas depois desse dia só conseguia dormir quatro horas por dia”, conta. A situação afetou gravemente sua saúde mental, levando-a a buscar ajuda médica. “Minha família percebeu o quanto eu estava mal e me levou para o psiquiatra. Fui diagnosticada com burnout”, diz.

Após um período de férias, Letícia não pediu atestado médico, mas, quando retornou, ainda em tratamento, foi demitida. “Eu fiquei muito aliviada. Agora estou cuidando da minha saúde e investindo na minha qualidade de vida”, conclui.
Jornalista abre empresa após tratamento

Após ser demitida, Letícia viu uma oportunidade de trabalhar com o que realmente gosta, sem prejudicar sua saúde. “Vi que poderia trabalhar com comunicação, que sempre foi minha paixão, mas dessa vez sem adoecer. Hoje, posso escolher as horas em que me sinto mais disposta e também os clientes com os quais mais me identifico”, explica.

Hoje, Letícia é dona de uma assessoria de comunicação, o que a permite conciliar trabalho e bem-estar, garantindo um equilíbrio que antes parecia impossível.