Marmitas ajudam a manter a alimentação saudável no dia a dia Reprodução / Freepik

Rio – O número de pessoas que optam por levar as famosas marmitas caseiras para o trabalho na capital subiu para 56%, conforme levantamento feito pelo Sindicato de Bares e Restaurantes (SindRio) nos últimos meses. O relatório aponta que esse quantitativo leva sempre ou às vezes a própria refeição para o local de trabalho. O DIA conversou com especialistas, que apontam que as principais razões para essa tendência são hábitos mais saudáveis e economia de dinheiro frente à inflação.

Conforme a pesquisa, o principal público que aderiu são mulheres e jovens de 19 a 30 anos. Para a nutricionista Daniela Canella, professora do Instituto de Nutrição da Universidade do Estado do Rio (Uerj), esse crescimento está ligado principalmente ao gosto pessoal. "A prática de levar marmita pode estar relacionada à escolha por consumir determinados alimentos, geralmente mais saudáveis, os quais podem não estar disponíveis no local de trabalho, já que o preparo em casa permite o controle dos ingredientes utilizados e de suas quantidades, por exemplo", afirma.

A profissional dá dicas de combinações ideais. "A comida ideal são as preparações baseadas em alimentos in natura ou minimamente processados, mas bem acondicionados e preservados para serem consumidos. Arroz, feijão, carne ou ovo (caso a pessoa consuma produtos de origem animal), hortaliças cozidas e, separadamente, uma salada crua. Se tiver fruta para sobremesa, melhor ainda!", acrescenta.

A jornalista Irene Santos, mesmo recebendo o suporte da sua empresa para alimentação diária, não abre mão de preparar e congelar a comida de duas a três vezes por semana. Ela já consegue perceber uma folga no bolso no fim do mês. "Com economia, consigo até ir a um restaurante melhor em um dia da semana com os amigos, no horário de trabalho, optando por estabelecimentos mais caros. Além disso, consigo comer melhor quando levo as marmitas e utilizar o dinheiro que sobra para o supermercado", destaca.

Dono de um restaurante em Botafogo, na Zona Sul, Frederico Szmukler percebeu bem essa redução no seu estabelecimento em 2024, principalmente no horário comercial. Segundo o empresário, a melhor opção para contornar essa queda foi criar estratégias para atrair esse público. "Reformulamos nosso menu executivo, trazendo de volta opções clássicas e mantendo preços baixos, com pratos a partir de R$ 29,90. Investimos em parcerias estratégicas com empresas e fechamos convênios que garantem 10% de desconto para os colaboradores". Segundo ele, a combinação de ações tem dado ótimos resultados no aumento do público.

Especialistas ouvidos pela reportagem foram unânimes em relação a destacar ao crescimento da inflação dos alimentos como mudança comportamental. Para André Braz, economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), de 2020 até agora, os alimentos subiram 55%, enquanto a inflação gira em torno de 30%. Ou seja, os alimentos subiram quase o dobro da inflação. Fazer uma refeição fora de casa se tornou ainda mais difícil, levando em consideração que, no restaurante, os empresários ainda precisam calcular o preço dos impostos.
"Embora preparar alimentação a domicílio também tenha ficado mais caro, porque os alimentos comprados no supermercado foram os que acumularam a inflação de 55% e os salários não acompanham esse aumento. Mesmo com as empresas subsidiando a alimentação, a moral da história é que, mesmo com esse aumento todo, a alimentação a domicílio ainda é mais vantajosa para a maioria das famílias", observa André.
Vários fatores contribuíram para a alta dos alimentos desde 2020 até agora. A cada período, há uma razão diferente. No início, houve uma grande demanda externa por produtos como as carnes. Em seguida, eventos climáticos extremos, como secas e chuvas fortes, também tiveram impacto.

Além disso, o aumento nos custos de produção, os choques externos, como o aumento nos preços dos fertilizantes e do petróleo, e a instabilidade econômica também elevaram os preços. A desvalorização da moeda contribuiu ainda mais para o aumento dos alimentos.
O economista Caio Ferrari afirma que a inflação dos alimentos tem sido maior que a média. Por isso, o almoço preparado em casa sai mais em conta do que comer fora. "Temos um desafio para o setor de restaurantes, à medida que menos consumidores vão estar consumindo, ou alguns podem reduzir a frequência. Os estabelecimentos terão de cortar custos e substituir produtos no menu para continuar conseguindo prestar um serviço que caiba no bolso. O IPCA todo mostra que a inflação está fora da meta proposta. Ou seja, temos alguma pressão inflacionária. Olhando para a refeição fora de casa, vemos que a inflação desse segmento é ainda maior", analisa.
* Matéria da estagiária Mariana Salazar, sob supervisão de Thiago Antunes